Capítulo 6 - O piquete grevista
Parte 1
Saímos de Ollantaytambo já noite cerrada. A chuva mantinha-se constante, sem vento. O ar condicionado estava ligado, mas a Cindy Lauper estava calada. Seguíamos em silêncio por um estradão estreito de brita miúda. Não se via nada pelos vidros das janelas. Não havia iluminação pública nem sinal de iluminação privada de alguma casa perdida naqueles campos ermos.
De repente o autocarro imobiliza-se. Espreitei pela coxia, já que pelo vidro da minha janela não via nada, na esperança de vislumbrar alguma coisa pelo vidro da frente. Só consegui perceber uns feixes de luzes de lanterna dispersos na noite. O Percy falava pela janela do motorista com alguém que se encontrava na berma da estrada.
Levantou-se um burburinho entre os caminheiros que se encontravam do lado esquerdo do minibus. Eles viram várias pessoas sair da vegetação alta para a estrada, acercando-se do primeiro homem e formando um grupo de cerca de uma dúzia de pessoas. Do lado direito, onde eu me encontrava, não via nada nem ninguém. Percy continuava à conversa com o homem na estrada. Falavam baixinho, em Quechua e nem mesmo os que falavam espanhol entendiam o que se passava. Entretanto, apareceram do lado direito do minibus uns três homens. Vi-os com a luminosidade dos faróis do autocarro, que eram a única fonte de luz naquele negrume infinito. Um deles tinha um ramo de árvore na mão, como se fosse um bastão.
Quando o Percy terminou o diálogo com o homem na estrada, virou-se para dentro do autocarro, olhando para nós com ar sério. Estávamos apreensivos, sem saber muito bem o que se estava a passar. Eu ainda mais, porque não via nada do que se passava do lado esquerdo, que pelos vistos era mais dado a movimentações humanas que o lado direito, onde me encontrava.
Malta, o autocarro não vai poder avançar mais, porque a estrada está barricada. Peço a todos que coloquem os frontais, vistam os casacos e não se esqueçam de nenhuns pertences dentro do autocarro. Vamos ter de fazer o resto do percurso a pé até ao acampamento. São só mais uns vinte minutos a pé. Ao longo daqueles quatro dias, aprendi o verdadeiro significado da expressão “vinte minutos” para o Percy, mas naquele momento de tensão não dei grande importância à expressão.
Quando saí para a rua, vi uns vinte e cinco homens espalhados na estrada em frente ao autocarro. O foco de luz projectada pelos faróis iluminava uma estrada atravancada de grossos troncos de árvores, alguns com raízes agarradas, e grandes pedregulhos. Os homens mexiam-se desconfortáveis, apoiando-se ora num pé ora noutro, mas algo me dizia que não tinha a ver com a chuva que teimava em cair. Olhavam para nós com expressões carrancudas, mas talvez fosse só o resultado do encadeamento dos nossos frontais.
O Percy certificou-se que não ficou nada no minibus e mandou o motorista para trás, já que não tinha mais serventia para nós. Eu comecei a ficar enervada. Ali naquele negrume tão intenso, num país estranho, no meio de uma greve que parecia ser levada mesmo a sério. Piquetes de greve com estradas barricadas? Eu só conheço as greves da CP às horas extraordinárias. Quando há uma geralmente não sinto diferenças, porque não deixa de haver comboios e chego sempre a horas ao escritório. Mas ali era diferente. Aqueles trabalhadores rurais tinham um ar determinado e de poucos amigos. A situação não era para menos: nós, liderados pelo Percy, estávamos a tentar furar a greve. Lembrei-me dum certo Terry Malloy, um famoso estivador, que também furou uma greve num filme de culto de Elia Kazan.
Quando estou enervada, tenho tendência para dizer disparates e brincar com as coisas mais parvas que me surgem no pensamento. Por esse motivo, era a única do grupo de caminheiros que estava para ali a palrar como o papagaio azul e verde do oleiro e ainda por cima a rir. Os outros mantinham-se votados ao silêncio, mais ou menos macambúzios, tentando mostrar alguma serenidade. A rigor, estavam tão nervosos como eu.
O nosso guia pediu-nos para nos mantermos unidos e iniciou a caminhada forçada. Tínhamos de caminhar com cuidado, entre as pedras e os ramos de árvores, para não cairmos. O piquete era maior do que parecia, pois muitos homens mantinham-se na berma da estrada e até em pequenos morros de onde provavelmente tinham empurrado as rochas. Estavam também silenciosos, mas observavam-nos com atenção e curiosidade. Tivemos de passar entre eles, numa espécie de corredor humano. Sentia-me muito apreensiva e tinha já desistido de rir e dizer disparates. Apenas tentava acompanhar os meus amigos, mantendo um olho míope no chão e outro olho míope na mochila amarela familiar à minha frente. Isto tudo, ao mesmo tempo que fazia os possíveis por desembaciar os óculos e ver algo através das gotas que se acumulavam nas lentes e nos cabelos molhados que teimavam em escorregar para os olhos.
Caminhávamos em silêncio, tentando andar o mais depressa possível sem tropeçar nos obstáculos vegetais e minerais. Já não se viam piquetes. A estrada estreitou. Éramos só nós no meio da escuridão desconhecida. Nem a lua ajudava, porque estava Lua Nova. Atravessámos uma linha férrea, também ela com um tronco de árvore e algumas pedras em cima dos carris. Voltámos a trotar uns atrás dos outros. Respirávamos ofegantes. De vez em quando ouvia-se um tilintar de cantil de alumínio. O som constante era o das botas sobre a brita. As luzes dos frontais saltavam descompassadas, seguindo os movimentos nervosos das cabeças, que procuravam o melhor sítio onde pôr os pés e algum conforto na visão de um rosto amigo.
Contornámos uma curva e voltámos a passar por cima da linha do comboio. Continuávamos a ter obstáculos no caminho, mas agora resumiam-se a pedras de pequena dimensão e ramos de árvores dignos de uma qualquer lareira. Mantínhamos o silêncio e o passo estugado. A chuva continuava. Pela terceira vez passámos a linha férrea. Aquele troço não pertence de certeza à Linha de Sintra, com aquela ausência de comboios… Continuámos a caminhar depressa, até que começámos a ver umas luzes difusas no meio do breu. Eram os frontais dos carregadores no acampamento improvisado. Com esta visão, a angústia sentida no seio do grupo desanuviou um bocadinho. Dissemos umas coisas indecifráveis, mais sons do que palavras, demos umas risadinhas nervosas, aliviámos um pouco a tensão.
Chegados de facto ao local do acampamento, não se percebia grande coisa. Tendas montadas amarelas e outras vermelhas mais pequenas, todas encharcadas da chuva, estavam espalhadas aparentemente ao acaso. Os carregadores diziam por aquí señorita, por aquí señor, levantando a “porta” do vestíbulo da tenda, convidando-nos a entrar e a nos abrigarmos da chuva. Levantou-se ali alguma confusão. Não se sabia onde estavam os duffle bags respectivos; os carregadores incitavam-nos a entrar nas tendas, mas nem sempre a primeira tenda em que nos agachávamos para espreitar, era onde estava o saco com o nosso nome escrito.
As vozes cruzavam-se, dando informações caóticas. Jeremy, está aqui o teu saco e o da Maria. Kate, onde está o Greg? O saco dele está ali naquela tenda. What? Is that you, Andrew? Viram o meu duffle bag? E o meu? Where’s my wife? Señorita, acá, acá. Os americanos, canadianos e britânicos estavam mais perdidos do que nós, pois não falavam espanhol. Só o Jeremy, que tinha a namorada colombiana, usufruía do privilégio de poder perceber (à posteriori) o que diziam os carregadores. O pior era quando apanhávamos um carregador que só falava Quechua. Aí, tínhamos mesmo de nos safar com a linguagem gestual que, melhor ou pior, é internacional.
Naquelas circunstâncias, não vi nenhuma tenda para mim e, a rigor, também não procurei com muito afinco. E se um piquete grevista decidisse ir para ali reivindicar melhores condições de trabalho? E se o piquete trouxesse paus e pedras para reivindicar com mais força? E se o piquete escolhesse a tenda onde eu estivesse sozinha para servir de mediadora das suas reivindicações? Naquele momento de tensão, os ses eram demasiados e a premência em encontrar abrigo da chuva era maior ainda.
Tinha já encontrado o meu duffle bag, incluindo o saco cama, mas fiquei ali em pé à chuva, meio aparvalhada. As pessoas já tinham encontrado uma tenda e estavam mais ou menos distribuídas. Umas de rabo para o ar a colocar mochilas nas tendas, outras já só se viam os pés calçados de fora. Tentei convencer as minhas amigas a me aceitarem por uma noite na tenda delas. A Sunita mantinha-se calada, olhando de soslaio para a Joana. Por sua vez, a Joana resmungava e esbracejava, antecipando o calor que ia sentir, dentro de uma tenda sobrelotada. Bolas, que aquela mulher parece que já nasceu com a menopausa!
Expus os factos irrefutáveis de que era a mais pequena das três e de não me mexer (muito) enquanto durmo. A Sunita esperava pela resposta da Joana e esta, no meio de resmungos, lá aquiesceu com relutância. Na verdade, as tendas amarelas tinham capacidade para três pessoas, mas tenho de concordar que três mulheres (mesmo que pequenas), mais mochilas, duffle bags e botas, ficam muito atravancadas, mesmo para os parâmetros de confortabilidade de uma tenda.
Lá entrei, tentando reduzir ao mínimo a minha presença dentro da tenda. Como é que é possível tentar passar despercebida dentro duma tenda com mais duas pessoas? Enfim, encostei-me o mais possível à “parede”, encolhi-me dentro do saco cama e lá fui adormecendo aos poucos, embalada pelas vozes dos carregadores, abafadas pela chuva que caía em cima do tecto duplo da tenda.
A meio da noite senti que abanavam a tenda. Ouvi os fechos da porta da tenda, passos, vozes sussurradas. Alguém falava "portinhol" baixinho. Fiquei com medo. Seria o piquete grevista reivindicando os seus direitos? Algum bando organizado a roubar caminheiros desprevenidos? Abri um olho míope mas só consegui ver a textura monocromática da flanela do interior do meu saco cama. Levantei um pouco a cabeça, mas continuava a não ver nada. O esforço era enorme, pois o ângulo a vencer entre o colchonete e uma perspectiva propícia à visão da porta da tenda, era grande. Eu dormia com a cabeça apoiada no polar do dia anterior, dobrado de maneira a não me magoar no fecho. No entanto, a preguiça era maior do que o medo e enquanto tentava contrair os músculos do pescoço para o levantar, o barulho desvaneceu-se. O breu mantinha-se, mais ainda com a névoa da miopia, pois estava sem óculos. Decidi por isso deixar que os dedos pegajosos do sono voltassem a envolver-me e puxarem-me outra vez para a Terra do Nunca, sem me preocupar com bandidos, salteadores ou piquetes grevistas.
Mais tarde, já se percebia uma claridade muito ténue, senti que alguém estava a entrar na tenda. Desta vez fiquei assustada a sério, porque vi um vulto de joelhos no vestíbulo. Senti um nó na garganta e desatei ao pontapé na direcção da porta. O resultado foi no mínimo cómico, porque me esqueci que estava dentro de um saco cama de dois metros e dez e que eu tenho um metro e cinquenta e nove. Quem visse de fora, eu devia lembrar uma salsicha azul-cobalto com espasmos, tentando acertar no vazio. Os espasmos (e o susto) foram tais, que fui escorregando pelo colchonete até à porta, conseguindo mesmo bater com a ponta dos cinquenta e um centímetros de sobra de saco cama na porta. Sem beneficiar nada de concreto com esta minha acção defensiva, voltei a dar a vitória ao sono, para tranquilidade das minhas amigas.
Acordei pela terceira vez com a tenda a abanar e com uma voz tímida que dizia Buenos días señorita, agua caliente. Era de dia. Ainda estremunhada, resolvi pôr logo os óculos, não fosse o diabo tecê-las. Ergui-me nos cotovelos e vi um dos carregadores a abrir a porta da tenda e a colocar no interior do vestíbulo duas bacias de plástico azul cueca com água. Já me tinham falado desta prática nas expedições a Machu Picchu, por isso sorri e decidi que seria mais correcto não ter outra crise espasmódica defensiva de pseudo salsicha gigante.
Continua
Sexta-feira, Outubro 02, 2009
Terça-feira, Setembro 15, 2009
Uifa: a Energia dos Incas VIII
Capítulo 5 - Preliminares
Parte 2 de 2
Percy avisou-nos pelo microfone do minibus que iríamos proceder a uma pequena paragem numa olaria típica de um senhor amigo dele, para vermos uma demonstração do trabalho artesanal de oleiro. Impacientei-me. Chovia e estava frio e eu não tinha vontade de sair do ambiente controlado do autocarro. Talvez fosse a preguiça da digestão a falar…
A olaria dividia-se entre a loja e a sala de trabalho e secagem, afastadas entre si por um pátio interior, que por sua vez fazia ligação com a residência do oleiro e sua esposa. Entrámos na loja e fomos directamente para a sala de trabalho, passando pelo pátio, onde um belo papagaio azul e verde estava recolhido debaixo de umas telhas, a coberto da chuva miudinha. O oleiro estava de pé atrás da mesa de trabalho, à espera que nos sentássemos nos bancos corridos.
Iniciou a explicação, falando espanhol por detrás de um bigode farfalhudo. Finda a explicação da primeira fase do processo, parou e deixou que o Percy fizesse a tradução para inglês. Lá tive de ouvir outra vez a mesma história. O Percy calou-se e deu a voz ao oleiro. Lá explicou a segunda fase do processo e deu a palavra ao amigo. Assim foram se revezando, completando a demonstração audiovisual e bilingue. A minha cabeça fazia movimentos como se estivesse a ver um jogo de ténis; olhava para a direita e falava o oleiro em espanhol do Peru, olhava para a esquerda e falava o guia Quechua em inglês americano.
A esposa do oleiro encontrava-se apoiada na ombreira da porta a ver explicado o labor do seu marido. Ao mesmo tempo mandava calar o papagaio que estava excitado com tantas visitas. Palrava como um doido, mas à semelhança de muita gente, não dizia nada. Finda a demonstração, o grupo mudou-se para a loja, já a pensar em comprar taças, potes, vasos e canecas, que tão baratas e bonitas eram. Eu e as duas canadianas mais velhas não fizemos compras. Realmente as peças tinham o seu interesse e eram bastante baratas, mas os meus impulsos consumistas tinham sido aplacados de manhã, com a compra do gorro que ainda não tinha saído da minha cabeça.
Aproveitei aqueles momentos para conversar com a Emma, mulher gordinha dos seus cinquenta anos e indagar sobre os seus dotes caminheiros. Pela conversa não me pareceu muito experiente, ao contrário da sua amiga Anne e do trio americano com quem já tinha falado. A primeira restringia o seu treino habitual ao uso das escadas para ir para o escritório, que ficava num décimo primeiro andar. É curioso, pois nos dois meses antecedentes à viagem, também eu fiz esse treino extra (para além da caminhada semanal e do treino físico diário), mas o escritório onde trabalho fica apenas num sexto andar. Independentemente do treino que cada um opta por fazer, o trilho inca é acessível a todas as idades. O que mais preocupa é a altitude, mas este factor tanto pode influenciar o caminheiro experiente como o caminheiro principiante.
Voltámos ao aconchego climatizado do minibus e seguimos para o próximo destino: Pisac. A Tina Turner voltou a acompanhar-nos e o efeito diurético do chá de folhas de coca regressou em grande. Porque é que não aproveitei a olaria e perguntei por uma casa de banho? Chegados a Pisac, alguém também aflito perguntou pelos aseos e mais uma vez o cooperativismo feminino em questões de bexiga foi unânime. Fomos não aos pares, como é apanágio das mulheres, mas em grupo! Éramos seis ou sete, todas com premências idênticas, até às poucas casinhas construídas junto à entrada das ruínas. Trocámos sorrisos, lenços de papel para as mais incautas, técnicas de urinar em sanitas e em turcas, enquanto íamos esperando pela nossa vez. Já aliviadas, regressámos ao grupo, onde Percy e os outros homens esperavam. O nosso guia, benevolente e conhecedor dos efeitos da coca, pôde iniciar a explicação sem perigo de interrupções forçadas.
Pisac foi uma urbanização importante, tanto pelo seu tamanho como pela sua localização geográfica, a Sul do Vale Sagrado. A cidade fica no topo de uma colina, com as encostas transformadas em socalcos regulares. Ao contrário do que se pode supor, não serviam para a agricultura. Esta era praticada nos vales férteis; aqueles eram para protecção à erosão da chuva, que é muita e forte na sua estação. Se os incas tinham a inteligência suficiente para não deixar as suas casas vir de reboleta colina abaixo, não percebo porque hoje em dia se permite construir em arribas não fósseis, beiras de barrancos e leitos de rios, acontecendo as desgraças humanas e materiais que se sabe, sempre que cai uma chuvita, culpando inevitavelmente os governos e câmaras municipais respectivos.
Voltámos ao minibus e dirigimo-nos ao último local de visita do dia: Ollantaytambo. Sinceramente já estava saturada. Sair do autocarro, ver ruínas, entrar no autocarro, ir a sítios para se comprar coisas… Era tudo interessante de ver, mas eu queria caminhar, deixar o asfalto, esquecer-me da civilização e do consumismo e entrar nos trilhos pela floresta adentro.
Ollantaytambo revelou-se uma vila muito bem arranjada, com edifícios baixos em pedra e madeira, com uma vida muito alegre e descontraída. Não é de admirar, pois é daqui que saem a maioria das expedições a pé para Machu Picchu ou outras expedições com outros métodos de locomoção (canoa, BTT, cavalo, TT) para outros destinos. Por isso, a atmosfera é feérica, tanto pela expectativa da partida, como pelo deslumbramento da chegada. Existem muitos bares e restaurantes, para todos os gostos e bolsas, cafés com Internet, esplanadas, um mercado ao ar livre e, claro está, o sítio arqueológico de Ollantaytambo (o tambo de Ollantay, que é como quem diz “o lugar fortificado do [general] Ollantay”).
Fiquei encantada com a vila! As ruas calcetadas com pedras redondas e com pequenos canais onde passava veloz a água de escorrências. O ribeiro que acompanhava um dos limites da vila, sob uma pequena ponte de pedra. Os restaurantes que tinham mesas nos alpendres e nas varandas em madeira. As pessoas de tantas nacionalidades que passeavam. Os índios que ali viviam. O ambiente era alegre, dinâmico, frenético. Sentia-se no ar uma forte energia; uma inquietação, uma ansiedade, um desassossego, mas estes sentimentos eram positivos, alegres e bem-dispostos.
A visita ao sítio arqueológico foi muito interessante. Além de vermos de perto mais um exemplo dos socalcos anti-erosão, a perspectiva do topo da colina proporcionava uma visão total da vila. O plano das ruas antigas era ortogonal, tal como na Baixa Pombalina. Havia uma praça central, a Plaza de Armas local, mas esta era contemporânea da colonização espanhola. A original foi destruída e substituída por edifícios e a actual foi feita noutro lugar. Em termos arqueológicos, o local foi um reduto da resistência inca e do seu último “rei”, Manco Inca. Antes desse período, tinha um núcleo urbano associado a um templo construído na encosta, sobre os socalcos.
Do templo, pouco resta além de uns monólitos de pedra com cerca de oitenta toneladas cada um, polidos e unidos com a técnica misteriosa inca, sem uso de colas ou argamassas. É impressionante constatar que aquelas pedras foram trazidas do outro lado do vale, dividido pelo rio Urubamba. Os incas tiveram de fazer descer os monólitos do topo do outro monte, galgar o rio e subir a encosta oposta. Depois disto, poliram e encaixaram de tal forma os pedregulhos que não existem interstícios nenhuns entre eles. O Percy explicou-nos também que o encaixe é feito com uma peça côncava e outra convexa, o que pressupõe um trabalho mais complexo e demorado do que se as pedras fossem “simplesmente” encostadas umas nas outras.
Se tivermos em consideração que os incas não conheciam a roda, nem usavam instrumentos de ferro e, alegadamente, não usavam trabalho escravo, torna-se difícil imaginar como conseguiram tal proeza. Há pessoas que optam por acreditar que foram uns homenzinhos verdes com antenas, vindos em objectos voadores não identificados, que ajudaram os pobrezitos dos incas, que eram uns incultos, coitadinhos. Outras, mais dadas a explicações de base científica, ficam sem respostas, a matutar como é que aquilo foi feito. Eu sei que fiquei. Olhava para o topo da montanha à minha frente, olhava para o rio lá em baixo e olhava para os monólitos ao meu lado, duas vezes e meia mais altos do que eu. Senti uma espécie de reverência quando toquei naqueles pedregulhos alisados.
Regressados à vila, fomos até ao Hostal Las Orquídeas, onde formámos uma pequena reunião no pátio interior, cheio de flores de todos os tipos, menos de orquídeas. O Percy esperou que nos acomodássemos nas cadeiras de verga e introduziu o assunto que tinha para nos falar. Devido à Greve Geral Nacional de Trabalhadores, não iríamos poder dormir essa noite no Hostal, como estava previsto. Não era porque os empregados participassem na greve, mas era porque iríamos dormir num acampamento a quatro quilómetros da entrada do Parque Nacional de Machu Picchu, de forma a conseguirmos no dia seguinte entrar o mais cedo possível, antes da chegada do piquete grevista que ia barricar o portão e, provavelmente, as estradas de acesso ao parque.
Piquetes a fazer barricadas!? Oh Percy, desculpa lá, mas afinal qual é a razão da greve? É porque os preços dos bens essenciais, como o milho e a batata, quadruplicaram em muito pouco tempo e as pessoas das zonas rurais mais pobres (que é mais de metade da população peruana) não têm dinheiro para os comprar e passam fome. Ficámos apreensivos. Tínhamos todos consciência que é necessário passar por um posto de controlo de passaportes antes de entrar no Parque. Esse posto é o famoso Quilómetro 82, que está sediado ao lado do portão que dá acesso à ponte sobre o rio onde inicia o Camino Inka. Se um piquete grevista o barricasse, era impossível entrar e, por consequência, chegar a Machu Picchu por aquela via pedonal.
Apesar do Percy explicar-nos esta situação da greve como se não fosse nada de especial, o facto de haver piquetes grevistas a cortar estradas e a cerrar entradas de locais como o Parque, deixou-me bastante preocupada. Não tanto no sentido de ficar com as férias estragadas (que seria realmente desagradável), mas mais no sentido de podermos estar numa zona potencialmente perigosa, com possibilidade de distúrbios públicos. Já conseguia ver-me espojada no chão, com uma ferida sangrenta na cabeça, no meio de uma manifestação de trabalhadores armados com paus e pedras, engalfinhados nos polícias de choque com bastões, balas de borracha e gás lacrimogéneo. Cenários que se vêem com frequência nos telejornais e que eu preferia mantê-los o mais longe possível de mim.
Percy continuou a falar, antecipando uma série de perguntas. Os carregadores já estavam a caminho para montar o acampamento; os nossos duffle bags estavam em segurança, na posse deles; amanhã teríamos de nos levantar às seis da manhã e não às sete; as compras efectuadas hoje iriam ficar ali no Orquídeas, à espera do nosso regresso; assim que passássemos pelo portão estaríamos descansados e por nossa conta; ao quarto dia de caminhada chegaríamos à cidade “perdida”.
Dito daquela forma, parecia tudo simples e sem complicações. Percy conseguiu apaziguar as nossas mentes, apesar de termos ficado a saber que tínhamos de prescindir já naquele dia de cama, de electricidade e de água quente canalizada. O grupo era realmente constituído por pessoas de trato fácil, porque ninguém se opôs demasiado à situação, sem resmungar, sem pedir indemnizações, sem chamar nomes a ninguém. Estávamos cientes da situação, tanto pelo direito das pessoas à greve, como pela pró-actividade do Percy, que tomou todas as providências para que a caminhada se efectivasse.
Finda a reunião, Percy deu-nos a optar entre uma caminhada até às “despensas” da antiga Ollantaytambo (uns buracos na encosta onde antigamente se guardavam os cereais e outros alimentos menos perecíveis) ou um passeio livre pela vila. O grupo não foi unânime nas escolhas, mas mais ou menos dividiu-se a meio. Uma metade foi com o Percy às “despensas” e a outra metade decidiu deambular pelas ruas. Ficou combinado encontro ao final da tarde para um jantar leve antes da ida para o primeiro acampamento.
Apesar da vontade de caminhar, não quis ir às “despensas”. Preferia explorar a vila. Estava encantada com ela. Conseguia até imaginar-me a viver ali. Não sei por quanto tempo, mas conseguia imaginar-me. Talvez pouco, porque certamente iria ter saudades do mar. Não obstante, parecia-me uma ideia plausível e agradável, imigrar para o Peru e, quem sabe, montar uma empresa de caminhadas. Talvez abrisse também um SPA com massagens, visto este negócio ter muita saída naquela zona, e provavelmente um restaurantezito de comida vegetariana com tempero português. Via já uma daquelas casas de pedra adaptadas e com um reclamo chamativo: escritório de caminhadas no rés-do-chão, restaurante no primeiro andar com terraço e o SPA algures entre os sacos de quinoa armazenados e os bastões de caminhada para alugar. Dividir-me-ia de manhã para as caminhadas, à tarde para as massagens e à noite para os jantares no restaurante. Os três departamentos teriam imagem corporativa coordenada e filosofia coerente com os ideais de sustentabilidade e ecologia.
Estes devaneios podiam ter origem em dois factores. O primeiro que o chá de folhas de coca pode não ser só diurético. O segundo que eu sentia-me feliz e capaz de ultrapassar qualquer desafio, mesmo o mais desconchavado, talvez até ir ao pé-coxinho até Machu Picchu e voltar. Decidi respirar fundo e ir comprar alguns postais para enviar aos amigos e familiares. Podia ser que me aliviasse um pouco a cabeça e que os destinatários recebessem parte desta minha energia que parecia estar a danificar as sinapses dos meus neurónios.
Passeámos sem destino aparente. Na praça principal, com uma estátua de Manco Inca, umas índias vendiam bastões de madeira com punhos em lã e saquinhos com folhas frescas de coca. Lembrados do conselho do Percy, comprámos um saquinho cada um, pois ele disse que nos iria ensinar a mascá-las durante o caminho inca. A Joana e a Sunita também compraram bastões de madeira. Mais uma vez, aquele sentimento de tabu invadiu-nos. Estávamos a comprar folhas de coca! Com os conhecimentos adequados, podíamos juntar os cinco saquinhos de cem gramas cada um, processar o alcalóide catorze e tornar-nos traficantes empedernidos!
Apesar de faltar pouco menos de duas horas para o encontro com o resto do grupo, nós os cinco decidimos ir petiscar qualquer coisa, não fosse o caso da refeição leve mencionada pelo Percy ser demasiado leve. Escolhemos um restaurante pequeno, com um alpendre virado para a rua principal. Era bastante agradável, com mesas de madeira sob toalhas coloridas e bancos corridos. Nos cantos do alpendre, havia vasos pendurados com flores. Já estava a escurecer e a esfriar, mas as pessoas continuavam na mesma dinâmica. A vila não parecia esmorecer. Será que tinha uma vida nocturna tão activa como Cusco? Não pudemos confirmar.
Enquanto esperávamos pelos pedidos, comecei a escrever os postais. Optei por não referir os meus planos de imigração e empreendedorismo, não fossem as pessoas pensar que eu tinha sucumbido aos efeitos da altitude e da coca(ína). Apenas fiz menção à meteorologia e à expectativa pela caminhada. Um postal tem um espaço útil pequeno, o que ajuda aos menos imaginativos para a escrita, mas da maneira como eu me sentia, era capaz de escrever ali um romance em dez volumes. Sentia-me frenética, inspirada. Oito postalinhos de quinze por dez são curtos para descrever aquilo que eu experimentava.
Enquanto comíamos as sopas (as sopas peruanas são magníficas), o casal britânico passou por nós na rua. Pareciam umas aves pernaltas louras de olhos claros. O John tinha um metro e noventa e cinco e a sua esposa tinha menos dez centímetros. Como ambos eram magros, ainda pareciam mais altos e desengonçados. Devem ter pensado que os portugueses não fazem mais nada na vida do que comer e falar. Éramos realmente o grupo mais falador, ainda por cima falávamos com as mãos, com os olhos, com os braços e com o que viesse à mão, enquanto o resto do grupo era mais recatado quando falavam. O casal inglês era particularmente silencioso. A ela só lhe ouvi a voz duas vezes. A primeira num jantar na tenda de campanha a recusar a sobremesa e a segunda já em Machu Picchu quando disse Look John, so many butterflies! E era verdade, eram muitas. Ele era mais social e simpático, mas com limites. Mesmo quando começaram a falar do Manchester United e do Chelsea, o John deixava os entusiasmos clubísticos para o Pedro, resumindo as suas opiniões a modestos trejeitos guturais de assentimento, que a meu ver eram mais de cortesia do que de real interesse pelo tema.
À hora combinada, lá nos encontrámos todos no Hostal Las Orquídeas para ir para o restaurante onde iríamos ter a “leve” refeição. Os que foram visitar as “despensas” e gastaram calorias na caminhada, deviam estar esgalgados com fome e a pensar na comida. Como nós tínhamos já o estômago forrado, fomos mais pelo convívio.
Continua
Parte 2 de 2
Percy avisou-nos pelo microfone do minibus que iríamos proceder a uma pequena paragem numa olaria típica de um senhor amigo dele, para vermos uma demonstração do trabalho artesanal de oleiro. Impacientei-me. Chovia e estava frio e eu não tinha vontade de sair do ambiente controlado do autocarro. Talvez fosse a preguiça da digestão a falar…
A olaria dividia-se entre a loja e a sala de trabalho e secagem, afastadas entre si por um pátio interior, que por sua vez fazia ligação com a residência do oleiro e sua esposa. Entrámos na loja e fomos directamente para a sala de trabalho, passando pelo pátio, onde um belo papagaio azul e verde estava recolhido debaixo de umas telhas, a coberto da chuva miudinha. O oleiro estava de pé atrás da mesa de trabalho, à espera que nos sentássemos nos bancos corridos.
Iniciou a explicação, falando espanhol por detrás de um bigode farfalhudo. Finda a explicação da primeira fase do processo, parou e deixou que o Percy fizesse a tradução para inglês. Lá tive de ouvir outra vez a mesma história. O Percy calou-se e deu a voz ao oleiro. Lá explicou a segunda fase do processo e deu a palavra ao amigo. Assim foram se revezando, completando a demonstração audiovisual e bilingue. A minha cabeça fazia movimentos como se estivesse a ver um jogo de ténis; olhava para a direita e falava o oleiro em espanhol do Peru, olhava para a esquerda e falava o guia Quechua em inglês americano.
A esposa do oleiro encontrava-se apoiada na ombreira da porta a ver explicado o labor do seu marido. Ao mesmo tempo mandava calar o papagaio que estava excitado com tantas visitas. Palrava como um doido, mas à semelhança de muita gente, não dizia nada. Finda a demonstração, o grupo mudou-se para a loja, já a pensar em comprar taças, potes, vasos e canecas, que tão baratas e bonitas eram. Eu e as duas canadianas mais velhas não fizemos compras. Realmente as peças tinham o seu interesse e eram bastante baratas, mas os meus impulsos consumistas tinham sido aplacados de manhã, com a compra do gorro que ainda não tinha saído da minha cabeça.
Aproveitei aqueles momentos para conversar com a Emma, mulher gordinha dos seus cinquenta anos e indagar sobre os seus dotes caminheiros. Pela conversa não me pareceu muito experiente, ao contrário da sua amiga Anne e do trio americano com quem já tinha falado. A primeira restringia o seu treino habitual ao uso das escadas para ir para o escritório, que ficava num décimo primeiro andar. É curioso, pois nos dois meses antecedentes à viagem, também eu fiz esse treino extra (para além da caminhada semanal e do treino físico diário), mas o escritório onde trabalho fica apenas num sexto andar. Independentemente do treino que cada um opta por fazer, o trilho inca é acessível a todas as idades. O que mais preocupa é a altitude, mas este factor tanto pode influenciar o caminheiro experiente como o caminheiro principiante.
Voltámos ao aconchego climatizado do minibus e seguimos para o próximo destino: Pisac. A Tina Turner voltou a acompanhar-nos e o efeito diurético do chá de folhas de coca regressou em grande. Porque é que não aproveitei a olaria e perguntei por uma casa de banho? Chegados a Pisac, alguém também aflito perguntou pelos aseos e mais uma vez o cooperativismo feminino em questões de bexiga foi unânime. Fomos não aos pares, como é apanágio das mulheres, mas em grupo! Éramos seis ou sete, todas com premências idênticas, até às poucas casinhas construídas junto à entrada das ruínas. Trocámos sorrisos, lenços de papel para as mais incautas, técnicas de urinar em sanitas e em turcas, enquanto íamos esperando pela nossa vez. Já aliviadas, regressámos ao grupo, onde Percy e os outros homens esperavam. O nosso guia, benevolente e conhecedor dos efeitos da coca, pôde iniciar a explicação sem perigo de interrupções forçadas.
Pisac foi uma urbanização importante, tanto pelo seu tamanho como pela sua localização geográfica, a Sul do Vale Sagrado. A cidade fica no topo de uma colina, com as encostas transformadas em socalcos regulares. Ao contrário do que se pode supor, não serviam para a agricultura. Esta era praticada nos vales férteis; aqueles eram para protecção à erosão da chuva, que é muita e forte na sua estação. Se os incas tinham a inteligência suficiente para não deixar as suas casas vir de reboleta colina abaixo, não percebo porque hoje em dia se permite construir em arribas não fósseis, beiras de barrancos e leitos de rios, acontecendo as desgraças humanas e materiais que se sabe, sempre que cai uma chuvita, culpando inevitavelmente os governos e câmaras municipais respectivos.
Voltámos ao minibus e dirigimo-nos ao último local de visita do dia: Ollantaytambo. Sinceramente já estava saturada. Sair do autocarro, ver ruínas, entrar no autocarro, ir a sítios para se comprar coisas… Era tudo interessante de ver, mas eu queria caminhar, deixar o asfalto, esquecer-me da civilização e do consumismo e entrar nos trilhos pela floresta adentro.
Ollantaytambo revelou-se uma vila muito bem arranjada, com edifícios baixos em pedra e madeira, com uma vida muito alegre e descontraída. Não é de admirar, pois é daqui que saem a maioria das expedições a pé para Machu Picchu ou outras expedições com outros métodos de locomoção (canoa, BTT, cavalo, TT) para outros destinos. Por isso, a atmosfera é feérica, tanto pela expectativa da partida, como pelo deslumbramento da chegada. Existem muitos bares e restaurantes, para todos os gostos e bolsas, cafés com Internet, esplanadas, um mercado ao ar livre e, claro está, o sítio arqueológico de Ollantaytambo (o tambo de Ollantay, que é como quem diz “o lugar fortificado do [general] Ollantay”).
Fiquei encantada com a vila! As ruas calcetadas com pedras redondas e com pequenos canais onde passava veloz a água de escorrências. O ribeiro que acompanhava um dos limites da vila, sob uma pequena ponte de pedra. Os restaurantes que tinham mesas nos alpendres e nas varandas em madeira. As pessoas de tantas nacionalidades que passeavam. Os índios que ali viviam. O ambiente era alegre, dinâmico, frenético. Sentia-se no ar uma forte energia; uma inquietação, uma ansiedade, um desassossego, mas estes sentimentos eram positivos, alegres e bem-dispostos.
A visita ao sítio arqueológico foi muito interessante. Além de vermos de perto mais um exemplo dos socalcos anti-erosão, a perspectiva do topo da colina proporcionava uma visão total da vila. O plano das ruas antigas era ortogonal, tal como na Baixa Pombalina. Havia uma praça central, a Plaza de Armas local, mas esta era contemporânea da colonização espanhola. A original foi destruída e substituída por edifícios e a actual foi feita noutro lugar. Em termos arqueológicos, o local foi um reduto da resistência inca e do seu último “rei”, Manco Inca. Antes desse período, tinha um núcleo urbano associado a um templo construído na encosta, sobre os socalcos.
Do templo, pouco resta além de uns monólitos de pedra com cerca de oitenta toneladas cada um, polidos e unidos com a técnica misteriosa inca, sem uso de colas ou argamassas. É impressionante constatar que aquelas pedras foram trazidas do outro lado do vale, dividido pelo rio Urubamba. Os incas tiveram de fazer descer os monólitos do topo do outro monte, galgar o rio e subir a encosta oposta. Depois disto, poliram e encaixaram de tal forma os pedregulhos que não existem interstícios nenhuns entre eles. O Percy explicou-nos também que o encaixe é feito com uma peça côncava e outra convexa, o que pressupõe um trabalho mais complexo e demorado do que se as pedras fossem “simplesmente” encostadas umas nas outras.
Se tivermos em consideração que os incas não conheciam a roda, nem usavam instrumentos de ferro e, alegadamente, não usavam trabalho escravo, torna-se difícil imaginar como conseguiram tal proeza. Há pessoas que optam por acreditar que foram uns homenzinhos verdes com antenas, vindos em objectos voadores não identificados, que ajudaram os pobrezitos dos incas, que eram uns incultos, coitadinhos. Outras, mais dadas a explicações de base científica, ficam sem respostas, a matutar como é que aquilo foi feito. Eu sei que fiquei. Olhava para o topo da montanha à minha frente, olhava para o rio lá em baixo e olhava para os monólitos ao meu lado, duas vezes e meia mais altos do que eu. Senti uma espécie de reverência quando toquei naqueles pedregulhos alisados.
Regressados à vila, fomos até ao Hostal Las Orquídeas, onde formámos uma pequena reunião no pátio interior, cheio de flores de todos os tipos, menos de orquídeas. O Percy esperou que nos acomodássemos nas cadeiras de verga e introduziu o assunto que tinha para nos falar. Devido à Greve Geral Nacional de Trabalhadores, não iríamos poder dormir essa noite no Hostal, como estava previsto. Não era porque os empregados participassem na greve, mas era porque iríamos dormir num acampamento a quatro quilómetros da entrada do Parque Nacional de Machu Picchu, de forma a conseguirmos no dia seguinte entrar o mais cedo possível, antes da chegada do piquete grevista que ia barricar o portão e, provavelmente, as estradas de acesso ao parque.
Piquetes a fazer barricadas!? Oh Percy, desculpa lá, mas afinal qual é a razão da greve? É porque os preços dos bens essenciais, como o milho e a batata, quadruplicaram em muito pouco tempo e as pessoas das zonas rurais mais pobres (que é mais de metade da população peruana) não têm dinheiro para os comprar e passam fome. Ficámos apreensivos. Tínhamos todos consciência que é necessário passar por um posto de controlo de passaportes antes de entrar no Parque. Esse posto é o famoso Quilómetro 82, que está sediado ao lado do portão que dá acesso à ponte sobre o rio onde inicia o Camino Inka. Se um piquete grevista o barricasse, era impossível entrar e, por consequência, chegar a Machu Picchu por aquela via pedonal.
Apesar do Percy explicar-nos esta situação da greve como se não fosse nada de especial, o facto de haver piquetes grevistas a cortar estradas e a cerrar entradas de locais como o Parque, deixou-me bastante preocupada. Não tanto no sentido de ficar com as férias estragadas (que seria realmente desagradável), mas mais no sentido de podermos estar numa zona potencialmente perigosa, com possibilidade de distúrbios públicos. Já conseguia ver-me espojada no chão, com uma ferida sangrenta na cabeça, no meio de uma manifestação de trabalhadores armados com paus e pedras, engalfinhados nos polícias de choque com bastões, balas de borracha e gás lacrimogéneo. Cenários que se vêem com frequência nos telejornais e que eu preferia mantê-los o mais longe possível de mim.
Percy continuou a falar, antecipando uma série de perguntas. Os carregadores já estavam a caminho para montar o acampamento; os nossos duffle bags estavam em segurança, na posse deles; amanhã teríamos de nos levantar às seis da manhã e não às sete; as compras efectuadas hoje iriam ficar ali no Orquídeas, à espera do nosso regresso; assim que passássemos pelo portão estaríamos descansados e por nossa conta; ao quarto dia de caminhada chegaríamos à cidade “perdida”.
Dito daquela forma, parecia tudo simples e sem complicações. Percy conseguiu apaziguar as nossas mentes, apesar de termos ficado a saber que tínhamos de prescindir já naquele dia de cama, de electricidade e de água quente canalizada. O grupo era realmente constituído por pessoas de trato fácil, porque ninguém se opôs demasiado à situação, sem resmungar, sem pedir indemnizações, sem chamar nomes a ninguém. Estávamos cientes da situação, tanto pelo direito das pessoas à greve, como pela pró-actividade do Percy, que tomou todas as providências para que a caminhada se efectivasse.
Finda a reunião, Percy deu-nos a optar entre uma caminhada até às “despensas” da antiga Ollantaytambo (uns buracos na encosta onde antigamente se guardavam os cereais e outros alimentos menos perecíveis) ou um passeio livre pela vila. O grupo não foi unânime nas escolhas, mas mais ou menos dividiu-se a meio. Uma metade foi com o Percy às “despensas” e a outra metade decidiu deambular pelas ruas. Ficou combinado encontro ao final da tarde para um jantar leve antes da ida para o primeiro acampamento.
Apesar da vontade de caminhar, não quis ir às “despensas”. Preferia explorar a vila. Estava encantada com ela. Conseguia até imaginar-me a viver ali. Não sei por quanto tempo, mas conseguia imaginar-me. Talvez pouco, porque certamente iria ter saudades do mar. Não obstante, parecia-me uma ideia plausível e agradável, imigrar para o Peru e, quem sabe, montar uma empresa de caminhadas. Talvez abrisse também um SPA com massagens, visto este negócio ter muita saída naquela zona, e provavelmente um restaurantezito de comida vegetariana com tempero português. Via já uma daquelas casas de pedra adaptadas e com um reclamo chamativo: escritório de caminhadas no rés-do-chão, restaurante no primeiro andar com terraço e o SPA algures entre os sacos de quinoa armazenados e os bastões de caminhada para alugar. Dividir-me-ia de manhã para as caminhadas, à tarde para as massagens e à noite para os jantares no restaurante. Os três departamentos teriam imagem corporativa coordenada e filosofia coerente com os ideais de sustentabilidade e ecologia.
Estes devaneios podiam ter origem em dois factores. O primeiro que o chá de folhas de coca pode não ser só diurético. O segundo que eu sentia-me feliz e capaz de ultrapassar qualquer desafio, mesmo o mais desconchavado, talvez até ir ao pé-coxinho até Machu Picchu e voltar. Decidi respirar fundo e ir comprar alguns postais para enviar aos amigos e familiares. Podia ser que me aliviasse um pouco a cabeça e que os destinatários recebessem parte desta minha energia que parecia estar a danificar as sinapses dos meus neurónios.
Passeámos sem destino aparente. Na praça principal, com uma estátua de Manco Inca, umas índias vendiam bastões de madeira com punhos em lã e saquinhos com folhas frescas de coca. Lembrados do conselho do Percy, comprámos um saquinho cada um, pois ele disse que nos iria ensinar a mascá-las durante o caminho inca. A Joana e a Sunita também compraram bastões de madeira. Mais uma vez, aquele sentimento de tabu invadiu-nos. Estávamos a comprar folhas de coca! Com os conhecimentos adequados, podíamos juntar os cinco saquinhos de cem gramas cada um, processar o alcalóide catorze e tornar-nos traficantes empedernidos!
Apesar de faltar pouco menos de duas horas para o encontro com o resto do grupo, nós os cinco decidimos ir petiscar qualquer coisa, não fosse o caso da refeição leve mencionada pelo Percy ser demasiado leve. Escolhemos um restaurante pequeno, com um alpendre virado para a rua principal. Era bastante agradável, com mesas de madeira sob toalhas coloridas e bancos corridos. Nos cantos do alpendre, havia vasos pendurados com flores. Já estava a escurecer e a esfriar, mas as pessoas continuavam na mesma dinâmica. A vila não parecia esmorecer. Será que tinha uma vida nocturna tão activa como Cusco? Não pudemos confirmar.
Enquanto esperávamos pelos pedidos, comecei a escrever os postais. Optei por não referir os meus planos de imigração e empreendedorismo, não fossem as pessoas pensar que eu tinha sucumbido aos efeitos da altitude e da coca(ína). Apenas fiz menção à meteorologia e à expectativa pela caminhada. Um postal tem um espaço útil pequeno, o que ajuda aos menos imaginativos para a escrita, mas da maneira como eu me sentia, era capaz de escrever ali um romance em dez volumes. Sentia-me frenética, inspirada. Oito postalinhos de quinze por dez são curtos para descrever aquilo que eu experimentava.
Enquanto comíamos as sopas (as sopas peruanas são magníficas), o casal britânico passou por nós na rua. Pareciam umas aves pernaltas louras de olhos claros. O John tinha um metro e noventa e cinco e a sua esposa tinha menos dez centímetros. Como ambos eram magros, ainda pareciam mais altos e desengonçados. Devem ter pensado que os portugueses não fazem mais nada na vida do que comer e falar. Éramos realmente o grupo mais falador, ainda por cima falávamos com as mãos, com os olhos, com os braços e com o que viesse à mão, enquanto o resto do grupo era mais recatado quando falavam. O casal inglês era particularmente silencioso. A ela só lhe ouvi a voz duas vezes. A primeira num jantar na tenda de campanha a recusar a sobremesa e a segunda já em Machu Picchu quando disse Look John, so many butterflies! E era verdade, eram muitas. Ele era mais social e simpático, mas com limites. Mesmo quando começaram a falar do Manchester United e do Chelsea, o John deixava os entusiasmos clubísticos para o Pedro, resumindo as suas opiniões a modestos trejeitos guturais de assentimento, que a meu ver eram mais de cortesia do que de real interesse pelo tema.
À hora combinada, lá nos encontrámos todos no Hostal Las Orquídeas para ir para o restaurante onde iríamos ter a “leve” refeição. Os que foram visitar as “despensas” e gastaram calorias na caminhada, deviam estar esgalgados com fome e a pensar na comida. Como nós tínhamos já o estômago forrado, fomos mais pelo convívio.
Continua
Quarta-feira, Julho 15, 2009
Uifa: a energia dos Incas VII
Capítulo 5 - Preliminares
Parte 1 de 2
O Percy veio buscar-nos ao hotel às nove da manhã. Quando ele chegou, eu estava a terminar o meu sumo de papaia. Felizmente acordei com o estômago refeito e com um apetite voraz. Os duffle bags de sete quilos foram lançados para o tejadilho do minibus, onde foram acondicionados por um dos carregadores (porters, para os locais) na estrutura de alumínio.
O dia seria dedicado a visitas a dois sítios arqueológicos, a uma aldeia tradicional e ao famoso Vale Sagrado, não necessariamente por esta ordem. Teríamos de viajar sempre de minibus para conseguir cumprir o itinerário, claro está, mas este facto parece um paradoxo: um grupo de caminheiros, que estava ali para caminhar, mas iria passar um dia inteiro a entrar e a sair dum autocarro, como uma qualquer excursão turística massificada.
O grupo foi entrando com as mochilas, acomodando-se o melhor possível entre bancos estreitos e mochilas pessoais volumosas. As duas amigas canadianas num banco duplo; a tripla americana ao fundo; o casal americano/colombiana mais à frente; coitado do casal britânico, que tinham mais de um metro e noventa e onze de altura cada um, ficavam todos encolhidos, fossem em que bancos fossem. No meu caso, devo admitir que ser da era da miniaturização tem um lado positivo. Não posso conduzir as motas dos meus sonhos, mas naquele autocarro ia a roçar com as pontas dos pés no chão e nem que quisesse, tocava com os joelhos no banco à minha frente.
Em termos de arqueologia, o Peru é um bocado como o Egipto (ou como em certas zonas de Lisboa): dá-se uma cavadela e, além das prováveis minhocas, encontram-se ruínas com mil anos. Neste país encontram-se vestígios de inúmeras civilizações pré-colombianas, tanto a nível de construções em pedra, como de múmias e objectos de uso quotidiano e pessoal. As edificações incas são mais famosas, talvez por serem contemporâneas da chegada dos primeiros espanhóis, talvez por usarem técnicas de construção pouco claras ainda para nós, talvez por parecerem incólumes aos tantos terramotos que se fazem sentir, onde tudo se desmorona menos os palácios e os templos incas. Seja como for, naquele dia íamos visitar dois famosos sítios: Pisac e Ollantaytambo.
Saímos de Cusco, subindo pelas encostas da “tigela” em direcção a uma aldeia chamada Qaqaqollo. Esta aldeia comunitária favorece de um programa de ecoturismo e sustentabilidade patrocinado por aquela empresa de caminhadas. Traduzindo, os habitantes mantém os seus modos de vida ancestrais e a empresa leva até eles os turistas que depois compram produtos manufacturados pelos locais, como é o caso dos lanifícios provenientes das alpacas criadas na aldeia. O dinheiro arrecadado é investido em infra-estruturas, tais como saneamento ou electricidade; em meios educativos para as crianças; e também em produtos não produzidos na aldeia, como é o caso do açúcar ou do calçado.
Pela estrada viam-se alguns minibus idênticos ao nosso, de outras empresas. Muitos grupos paravam à beira da estrada, em pequenos miradouros, para apreciarem a vista de Cusco. Outros grupos, de locais, encontravam-se espaçados pelas estradas. Era um ajuntamento estranho, sentia-se ali alguma tensão, tanto no modo de estar, como nos olhares. Percy explicou que aquelas pessoas estavam ali, porque queriam ver o Primeiro-Ministro que iria visitar a cidade e os arredores com o objectivo de tentar cancelar a Greve Geral Nacional de Trabalhadores programada para o dia seguinte.
Ficámos à coca (e não estou a falar do arbusto dos catorze alcalóides) quando ouvimos falar pela segunda vez da Greve Geral. Afinal, ia ter influência no nosso programa, ou não? Ia condicionar a entrada no Caminho Inka e a Machu Picchu, ou não? É evidente que concordo que as pessoas têm de lutar pelos seus direitos e por melhores condições de vida e trabalho, mas cresceu-me um temor de, por algum motivo exterior a mim, não conseguir cumprir o objectivo a que me propus e pelo qual me esforcei tanto em termos económicos.
O Percy sossegou-nos afirmando que tinha tudo sob controlo; que era um guia experiente e conhecedor; que tinha tudo arranjado para entrarmos amanhã no Parque Nacional; que era a quadringentésima quadragésima nona vez que fazia o Camino Inka até Machu Picchu. Uma vez lá dentro podia haver as greves todas que quisessem organizar, que já não nos impediam de chegar à “cidade perdida”. Uau… Quase quinhentas vezes que fez o caminho inca. Este guia deve acordar e dizer: Oh que aborrecimento, lá vou ter de ir outra vez a Machu Picchu!
Não estávamos a questionar as qualidades profissionais do guia, mas mesmo assim ficámos mais tranquilos. Voltámos a prestar atenção à paisagem que passava pelas janelas. Sem contar com a altitude e o tamanho descomunal das montanhas, lembrava-me um pouco o interior de Portugal. A semelhança baseava-se na presença de eucaliptos. Também aqui plantaram árvores infestantes provenientes da Austrália, com o fito no comércio da pasta de papel.
O minibus ia contornando as encostas íngremes, fazendo curvas apertadas. Deixámos o asfalto e começámos a subir um estradão de terra inclinado. Já ninguém ligava aos eucaliptos; só prestávamos atenção ao som do motor a subir em esforço supremo aqueles caminhos rurais estreitos.
No centro da aldeia esperavam-nos seis mulheres índias vestidas nos seus fatos típicos. Cada uma empunhava utensílios de fiar lã. Era uma demonstração bastante insípida e mal representada, mas para quem não teve uma tia que tricotava camisolas de lã pesadíssimas e que pedia braços alheios para serem os desenroladores das meadas que ela transformava em novelos, poderia achar interessante.
As casas em redor daquele grande terreiro eram feitas em adobe. Construíram-nas na encosta sobranceira ao vale. Muitos tijolos de adobe estavam alinhados no chão a secar, apesar de estar a cair uma chuva miudinha. Por debaixo de um telheiro comprido de palha, os produtos manufacturados em lã de alpaca apresentavam-se expostos por categorias. Peúgas, cachecóis, mantas, cobertores, camisolas, gorros, luvas, pequenas bonecas, sacos e festões com motivos peruanos. Senhoras índias tricotavam e incitavam-nos ao consumo.
Sabendo de antemão que ia fazer aquela visita, comprei um gorro colorido para ajudar a comunidade e para servir de recordação da viagem. E também para o usar claro. Assim que o comprei, coloquei-o na cabeça e só o tirei no final do dia. Ao contrário da lã de ovelha, a de alpaca não faz alergia em contacto com a pele. É uma lã muito mais fina, suave e quente.
Quando o grupo parecia já estar satisfeito com as compras efectuadas, Percy decidiu começar a “visita de estudo”. Sob outro telheiro de palha, mais pequeno, existia um forno a lenha e uns tanques em alvenaria que serviam para tingir as lãs. As tintas usadas são todas de origem natural. Umas folhas, umas flores e umas raízes específicas produzem respectivamente o verde, o amarelo e o castanho. O azul, creio, é obtido de um mineral. O vermelho é obtido da cochonilha, um insecto que vive num cacto. Esta cor também é conhecida por E120, usada na indústria alimentar e cosmética.
O cacto onde vive a cochonilha era sagrado para os incas, pois o sumo extraído da polpa era usado em rituais religiosos pelos sacerdotes. Ao beber o sumo, os sacerdotes conseguiam falar com os deuses. A meu ver, isto quer dizer que o sumo do cacto está para os sacerdotes incas, como as tâmaras estão para os eremitas franciscanos que iam para o deserto: são alucinogénicos. Uns viam deuses; outros viam a Virgem Maria. É a prova de que as pessoas só vêm aquilo que querem.
O Percy explicou também à pequena assembleia internacional em seu redor, que a lã leva muito tempo a crescer e por isso as alpacas são tosquiadas apenas uma vez em cada dois anos. Esta característica leva a que seja um produto raro e por consequência, os têxteis vendidos nas lojas são caros. O guia era extremamente pragmático. Continuou advertindo-nos que um pulôver ou casaco de lã de alpaca custa para cima de cem ou cento e cinquenta soles e se alguém quisesse vender-nos algo por menos do que esse valor, é porque estava a tentar intrujar-nos.
Avisada da conjuntura da procura e da oferta da lã de alpaca, decidi explorar o terreiro pois o meu interesse no consumo daquele bem já estava satisfeito com a compra do gorro. Não dava vontade para explorar mais além do terreiro por causa do frio, mas principalmente por causa da chuva. Não tinha comigo o casaco impermeável, porque estava acondicionado no duffle bag. Fui ter com os lamas e os alpacas que se encontravam encolhidos, à chuva, do lado oposto à montra dos lanifícios. O alpaca é um animal habituado ao ser humano e por isso foi fácil aproximar-me para fazer umas festas e tirar umas fotografias. Realmente o pêlo daquele bicho é muito fino e suave. Mesmo à chuva o pêlo permanecia morno, mas se calhar é porque o alpaca é um mamífero de sangue quente, e aquele em questão estava vivo e de saúde. Digo eu…
O efeito diurético do chá de folhas de coca começou a impor-se. Perguntei à Anne, a canadiana mais velha, se tinha visto alguma casa de banho. As mulheres têm uma espécie de sexto sentido para estas coisas e normalmente existe um mútuo apoio que não conhece fronteiras. Apontou-me uma casinha, num dos lados do terreiro. Era uma verdadeira “casinha”: um cubículo de chapa de zinco pintado de azul, com um buraco rectangular no chão coberto por uma tábua de madeira que, por sua vez, tinha um buraco redondo, mais pequeno, mas suficiente para a função a exercer. E mais não é preciso!
A visita à aldeia de Qaqaqollo terminou pouco depois e voltámos a entrar no minibus. O destino seguinte era o Vale Sagrado. Parámos num grande miradouro para observar o famoso vale e saímos aproveitando uma aberta da chuva. O rio Wilcamayu (rio sagrado) serpenteava ao longo do vale, por entre hortas e campos de milho. Actualmente existem pequenos povoados, ao contrário de antigamente, que era uma zona não urbanizada e exclusiva para a monocultura do milho. É um vale grandioso, tanto pela sua dimensão como pela sua beleza. De certa forma, lembra um pouco os vales açorianos, pelos diferentes tons de verde e pelos “retalhos” criados pelas divisões de propriedades, mas numa escala maior.
Outro aguaceiro forçou-nos a entrar mais cedo no minibus. A próxima paragem tinha um valor mais prosaico: almoçar. Estava previsto um almoço volante na Hacienda Allambra, uma quinta com restaurante em tudo idêntica às quintas portuguesas onde se organizam casamentos e outros eventos sociais. Consistia em um edifício central de um só piso, onde estavam a cozinha, as instalações sanitárias, uma loja de artesanato e um pátio coberto. O jardim em redor do edifício estava povoado de palhotas de colmo com conjuntos de mesas sob a sua alçada. Um grupo musical actuava debaixo de uma palhota mais pequena. No pátio coberto estava o buffet, disposto em duas filas de pratos variados. Numa mesa ao fundo, encontravam-se as sobremesas. A comida não era nada de extraordinário e ainda por cima fui obrigada a cingir-me às saladas, porque o resto era à base de carne. Enquanto comíamos, o Percy descreveu um doce tradicional peruano à base de arroz e milho, disponível na supra referida mesa. As minhas papilas gustativas começaram logo a salivar pela sobremesa.
Quando o tema de conversa é Sobremesa, tenho o mau hábito de elevar demasiado as expectativas. Os gulosos são assim e eu não sou excepção. Comi o mais rápido possível as massas e as saladas e dirigi-me à mesa dos doces. Reconheci logo os recipientes descritos pelo Percy: um tacho de barro com uma papa amarela e uma travessa com um líquido espesso roxo. Apesar do jogo de cores ser do meu agrado, fiquei desconfiada, mas como no episódio das “papas”, entrei em negação e servi-me de duas belas porções de cada um dos recipientes, deixando para trás os bolos de chocolate.
Lá fui fugindo à chuva o melhor que pude e sentei-me à mesa com os meus companheiros. O Percy olhava para mim, também em expectativa, mas no seu caso era mais do tipo nacionalista, gastronomicamente falando, claro. Queria que nós gostássemos das sobremesas do seu país. Era natural, todos os povos são assim. Provei como ele sugeriu, um pouco das duas coisas na mesma colher. Os olhos de Percy exigiam-me uma resposta. Engoli e olhei para ele sentindo-me defraudada: isto é arroz doce com geleia de milho! Só lhe faltava a canela. Seria este, outro exemplo da Globalização?
À medida que íamos acabando de comer, fomos buscar chá de folhas de coca e ficámos à conversa, enquanto do lado de lá do perímetro do colmo chovia. O efeito diurético do chá continuava a fazer-se sentir, cada vez com mais premência e tanto antes como depois da refeição tive de ir à casa de banho. Felizmente aqui não disponibilizavam uma “casinha”, mas sim umas instalações sanitárias com águas quentes e frias, papel higiénico de folha dupla, espelhos e secadores de mãos.
Voltámos ao minibus. Agora a viagem demoraria um pouco mais. Íamos passar ao longo do Vale Sagrado, em direcção a Pisac, um sítio arqueológico de grande importância. Foi interessante ir na estrada, a acompanhar o rio Wilcamayu. A perspectiva do Vale era agora térrea, o que facilitava a confirmação de alguns dados que os meus olhos míopes não puderam perceber com mais rigor do cimo do miradouro.
Eu ia à janela, agarrada à minha mochila, com o nariz quase a tocar no vidro. Sentia-me bem. Primeiro, porque tinha a barriga cheia; segundo, porque o ar condicionado estava calibrado para uma temperatura confortável; terceiro, porque a paisagem era muito bonita e eu ainda não acreditava que estava na América do Sul, na eminência de fazer o Camino Inka até Machu Picchu.
Ouvia as vozes das outras pessoas a falarem, tanto as dos meus amigos, como as dos companheiros estrangeiros. Aquela cacofonia de palavras soltas era entrecortada pela Tina Turner e pela Cindy Lauper, escolhas musicais do motorista. Imaginava que nestas viagens turísticas só colocassem aquelas músicas das flautas de pan e outras músicas alegadamente tradicionais, como durante a hora do almoço. Se ao princípio me pareceu que a Cindy e as suas True Colors estavam um bocado deslocadas, deixou-me de parecer estranho logo a seguir. Aquela escolha musical era sinal de que o guia e o motorista eram pessoas avisadas e modernas e que não seguem os dogmas habituais do turismo massificado. Chegada a esta conclusão, continuei a sentir-me feliz e confortável.
Continua
Parte 1 de 2
O Percy veio buscar-nos ao hotel às nove da manhã. Quando ele chegou, eu estava a terminar o meu sumo de papaia. Felizmente acordei com o estômago refeito e com um apetite voraz. Os duffle bags de sete quilos foram lançados para o tejadilho do minibus, onde foram acondicionados por um dos carregadores (porters, para os locais) na estrutura de alumínio.
O dia seria dedicado a visitas a dois sítios arqueológicos, a uma aldeia tradicional e ao famoso Vale Sagrado, não necessariamente por esta ordem. Teríamos de viajar sempre de minibus para conseguir cumprir o itinerário, claro está, mas este facto parece um paradoxo: um grupo de caminheiros, que estava ali para caminhar, mas iria passar um dia inteiro a entrar e a sair dum autocarro, como uma qualquer excursão turística massificada.
O grupo foi entrando com as mochilas, acomodando-se o melhor possível entre bancos estreitos e mochilas pessoais volumosas. As duas amigas canadianas num banco duplo; a tripla americana ao fundo; o casal americano/colombiana mais à frente; coitado do casal britânico, que tinham mais de um metro e noventa e onze de altura cada um, ficavam todos encolhidos, fossem em que bancos fossem. No meu caso, devo admitir que ser da era da miniaturização tem um lado positivo. Não posso conduzir as motas dos meus sonhos, mas naquele autocarro ia a roçar com as pontas dos pés no chão e nem que quisesse, tocava com os joelhos no banco à minha frente.
Em termos de arqueologia, o Peru é um bocado como o Egipto (ou como em certas zonas de Lisboa): dá-se uma cavadela e, além das prováveis minhocas, encontram-se ruínas com mil anos. Neste país encontram-se vestígios de inúmeras civilizações pré-colombianas, tanto a nível de construções em pedra, como de múmias e objectos de uso quotidiano e pessoal. As edificações incas são mais famosas, talvez por serem contemporâneas da chegada dos primeiros espanhóis, talvez por usarem técnicas de construção pouco claras ainda para nós, talvez por parecerem incólumes aos tantos terramotos que se fazem sentir, onde tudo se desmorona menos os palácios e os templos incas. Seja como for, naquele dia íamos visitar dois famosos sítios: Pisac e Ollantaytambo.
Saímos de Cusco, subindo pelas encostas da “tigela” em direcção a uma aldeia chamada Qaqaqollo. Esta aldeia comunitária favorece de um programa de ecoturismo e sustentabilidade patrocinado por aquela empresa de caminhadas. Traduzindo, os habitantes mantém os seus modos de vida ancestrais e a empresa leva até eles os turistas que depois compram produtos manufacturados pelos locais, como é o caso dos lanifícios provenientes das alpacas criadas na aldeia. O dinheiro arrecadado é investido em infra-estruturas, tais como saneamento ou electricidade; em meios educativos para as crianças; e também em produtos não produzidos na aldeia, como é o caso do açúcar ou do calçado.
Pela estrada viam-se alguns minibus idênticos ao nosso, de outras empresas. Muitos grupos paravam à beira da estrada, em pequenos miradouros, para apreciarem a vista de Cusco. Outros grupos, de locais, encontravam-se espaçados pelas estradas. Era um ajuntamento estranho, sentia-se ali alguma tensão, tanto no modo de estar, como nos olhares. Percy explicou que aquelas pessoas estavam ali, porque queriam ver o Primeiro-Ministro que iria visitar a cidade e os arredores com o objectivo de tentar cancelar a Greve Geral Nacional de Trabalhadores programada para o dia seguinte.
Ficámos à coca (e não estou a falar do arbusto dos catorze alcalóides) quando ouvimos falar pela segunda vez da Greve Geral. Afinal, ia ter influência no nosso programa, ou não? Ia condicionar a entrada no Caminho Inka e a Machu Picchu, ou não? É evidente que concordo que as pessoas têm de lutar pelos seus direitos e por melhores condições de vida e trabalho, mas cresceu-me um temor de, por algum motivo exterior a mim, não conseguir cumprir o objectivo a que me propus e pelo qual me esforcei tanto em termos económicos.
O Percy sossegou-nos afirmando que tinha tudo sob controlo; que era um guia experiente e conhecedor; que tinha tudo arranjado para entrarmos amanhã no Parque Nacional; que era a quadringentésima quadragésima nona vez que fazia o Camino Inka até Machu Picchu. Uma vez lá dentro podia haver as greves todas que quisessem organizar, que já não nos impediam de chegar à “cidade perdida”. Uau… Quase quinhentas vezes que fez o caminho inca. Este guia deve acordar e dizer: Oh que aborrecimento, lá vou ter de ir outra vez a Machu Picchu!
Não estávamos a questionar as qualidades profissionais do guia, mas mesmo assim ficámos mais tranquilos. Voltámos a prestar atenção à paisagem que passava pelas janelas. Sem contar com a altitude e o tamanho descomunal das montanhas, lembrava-me um pouco o interior de Portugal. A semelhança baseava-se na presença de eucaliptos. Também aqui plantaram árvores infestantes provenientes da Austrália, com o fito no comércio da pasta de papel.
O minibus ia contornando as encostas íngremes, fazendo curvas apertadas. Deixámos o asfalto e começámos a subir um estradão de terra inclinado. Já ninguém ligava aos eucaliptos; só prestávamos atenção ao som do motor a subir em esforço supremo aqueles caminhos rurais estreitos.
No centro da aldeia esperavam-nos seis mulheres índias vestidas nos seus fatos típicos. Cada uma empunhava utensílios de fiar lã. Era uma demonstração bastante insípida e mal representada, mas para quem não teve uma tia que tricotava camisolas de lã pesadíssimas e que pedia braços alheios para serem os desenroladores das meadas que ela transformava em novelos, poderia achar interessante.
As casas em redor daquele grande terreiro eram feitas em adobe. Construíram-nas na encosta sobranceira ao vale. Muitos tijolos de adobe estavam alinhados no chão a secar, apesar de estar a cair uma chuva miudinha. Por debaixo de um telheiro comprido de palha, os produtos manufacturados em lã de alpaca apresentavam-se expostos por categorias. Peúgas, cachecóis, mantas, cobertores, camisolas, gorros, luvas, pequenas bonecas, sacos e festões com motivos peruanos. Senhoras índias tricotavam e incitavam-nos ao consumo.
Sabendo de antemão que ia fazer aquela visita, comprei um gorro colorido para ajudar a comunidade e para servir de recordação da viagem. E também para o usar claro. Assim que o comprei, coloquei-o na cabeça e só o tirei no final do dia. Ao contrário da lã de ovelha, a de alpaca não faz alergia em contacto com a pele. É uma lã muito mais fina, suave e quente.
Quando o grupo parecia já estar satisfeito com as compras efectuadas, Percy decidiu começar a “visita de estudo”. Sob outro telheiro de palha, mais pequeno, existia um forno a lenha e uns tanques em alvenaria que serviam para tingir as lãs. As tintas usadas são todas de origem natural. Umas folhas, umas flores e umas raízes específicas produzem respectivamente o verde, o amarelo e o castanho. O azul, creio, é obtido de um mineral. O vermelho é obtido da cochonilha, um insecto que vive num cacto. Esta cor também é conhecida por E120, usada na indústria alimentar e cosmética.
O cacto onde vive a cochonilha era sagrado para os incas, pois o sumo extraído da polpa era usado em rituais religiosos pelos sacerdotes. Ao beber o sumo, os sacerdotes conseguiam falar com os deuses. A meu ver, isto quer dizer que o sumo do cacto está para os sacerdotes incas, como as tâmaras estão para os eremitas franciscanos que iam para o deserto: são alucinogénicos. Uns viam deuses; outros viam a Virgem Maria. É a prova de que as pessoas só vêm aquilo que querem.
O Percy explicou também à pequena assembleia internacional em seu redor, que a lã leva muito tempo a crescer e por isso as alpacas são tosquiadas apenas uma vez em cada dois anos. Esta característica leva a que seja um produto raro e por consequência, os têxteis vendidos nas lojas são caros. O guia era extremamente pragmático. Continuou advertindo-nos que um pulôver ou casaco de lã de alpaca custa para cima de cem ou cento e cinquenta soles e se alguém quisesse vender-nos algo por menos do que esse valor, é porque estava a tentar intrujar-nos.
Avisada da conjuntura da procura e da oferta da lã de alpaca, decidi explorar o terreiro pois o meu interesse no consumo daquele bem já estava satisfeito com a compra do gorro. Não dava vontade para explorar mais além do terreiro por causa do frio, mas principalmente por causa da chuva. Não tinha comigo o casaco impermeável, porque estava acondicionado no duffle bag. Fui ter com os lamas e os alpacas que se encontravam encolhidos, à chuva, do lado oposto à montra dos lanifícios. O alpaca é um animal habituado ao ser humano e por isso foi fácil aproximar-me para fazer umas festas e tirar umas fotografias. Realmente o pêlo daquele bicho é muito fino e suave. Mesmo à chuva o pêlo permanecia morno, mas se calhar é porque o alpaca é um mamífero de sangue quente, e aquele em questão estava vivo e de saúde. Digo eu…
O efeito diurético do chá de folhas de coca começou a impor-se. Perguntei à Anne, a canadiana mais velha, se tinha visto alguma casa de banho. As mulheres têm uma espécie de sexto sentido para estas coisas e normalmente existe um mútuo apoio que não conhece fronteiras. Apontou-me uma casinha, num dos lados do terreiro. Era uma verdadeira “casinha”: um cubículo de chapa de zinco pintado de azul, com um buraco rectangular no chão coberto por uma tábua de madeira que, por sua vez, tinha um buraco redondo, mais pequeno, mas suficiente para a função a exercer. E mais não é preciso!
A visita à aldeia de Qaqaqollo terminou pouco depois e voltámos a entrar no minibus. O destino seguinte era o Vale Sagrado. Parámos num grande miradouro para observar o famoso vale e saímos aproveitando uma aberta da chuva. O rio Wilcamayu (rio sagrado) serpenteava ao longo do vale, por entre hortas e campos de milho. Actualmente existem pequenos povoados, ao contrário de antigamente, que era uma zona não urbanizada e exclusiva para a monocultura do milho. É um vale grandioso, tanto pela sua dimensão como pela sua beleza. De certa forma, lembra um pouco os vales açorianos, pelos diferentes tons de verde e pelos “retalhos” criados pelas divisões de propriedades, mas numa escala maior.
Outro aguaceiro forçou-nos a entrar mais cedo no minibus. A próxima paragem tinha um valor mais prosaico: almoçar. Estava previsto um almoço volante na Hacienda Allambra, uma quinta com restaurante em tudo idêntica às quintas portuguesas onde se organizam casamentos e outros eventos sociais. Consistia em um edifício central de um só piso, onde estavam a cozinha, as instalações sanitárias, uma loja de artesanato e um pátio coberto. O jardim em redor do edifício estava povoado de palhotas de colmo com conjuntos de mesas sob a sua alçada. Um grupo musical actuava debaixo de uma palhota mais pequena. No pátio coberto estava o buffet, disposto em duas filas de pratos variados. Numa mesa ao fundo, encontravam-se as sobremesas. A comida não era nada de extraordinário e ainda por cima fui obrigada a cingir-me às saladas, porque o resto era à base de carne. Enquanto comíamos, o Percy descreveu um doce tradicional peruano à base de arroz e milho, disponível na supra referida mesa. As minhas papilas gustativas começaram logo a salivar pela sobremesa.
Quando o tema de conversa é Sobremesa, tenho o mau hábito de elevar demasiado as expectativas. Os gulosos são assim e eu não sou excepção. Comi o mais rápido possível as massas e as saladas e dirigi-me à mesa dos doces. Reconheci logo os recipientes descritos pelo Percy: um tacho de barro com uma papa amarela e uma travessa com um líquido espesso roxo. Apesar do jogo de cores ser do meu agrado, fiquei desconfiada, mas como no episódio das “papas”, entrei em negação e servi-me de duas belas porções de cada um dos recipientes, deixando para trás os bolos de chocolate.
Lá fui fugindo à chuva o melhor que pude e sentei-me à mesa com os meus companheiros. O Percy olhava para mim, também em expectativa, mas no seu caso era mais do tipo nacionalista, gastronomicamente falando, claro. Queria que nós gostássemos das sobremesas do seu país. Era natural, todos os povos são assim. Provei como ele sugeriu, um pouco das duas coisas na mesma colher. Os olhos de Percy exigiam-me uma resposta. Engoli e olhei para ele sentindo-me defraudada: isto é arroz doce com geleia de milho! Só lhe faltava a canela. Seria este, outro exemplo da Globalização?
À medida que íamos acabando de comer, fomos buscar chá de folhas de coca e ficámos à conversa, enquanto do lado de lá do perímetro do colmo chovia. O efeito diurético do chá continuava a fazer-se sentir, cada vez com mais premência e tanto antes como depois da refeição tive de ir à casa de banho. Felizmente aqui não disponibilizavam uma “casinha”, mas sim umas instalações sanitárias com águas quentes e frias, papel higiénico de folha dupla, espelhos e secadores de mãos.
Voltámos ao minibus. Agora a viagem demoraria um pouco mais. Íamos passar ao longo do Vale Sagrado, em direcção a Pisac, um sítio arqueológico de grande importância. Foi interessante ir na estrada, a acompanhar o rio Wilcamayu. A perspectiva do Vale era agora térrea, o que facilitava a confirmação de alguns dados que os meus olhos míopes não puderam perceber com mais rigor do cimo do miradouro.
Eu ia à janela, agarrada à minha mochila, com o nariz quase a tocar no vidro. Sentia-me bem. Primeiro, porque tinha a barriga cheia; segundo, porque o ar condicionado estava calibrado para uma temperatura confortável; terceiro, porque a paisagem era muito bonita e eu ainda não acreditava que estava na América do Sul, na eminência de fazer o Camino Inka até Machu Picchu.
Ouvia as vozes das outras pessoas a falarem, tanto as dos meus amigos, como as dos companheiros estrangeiros. Aquela cacofonia de palavras soltas era entrecortada pela Tina Turner e pela Cindy Lauper, escolhas musicais do motorista. Imaginava que nestas viagens turísticas só colocassem aquelas músicas das flautas de pan e outras músicas alegadamente tradicionais, como durante a hora do almoço. Se ao princípio me pareceu que a Cindy e as suas True Colors estavam um bocado deslocadas, deixou-me de parecer estranho logo a seguir. Aquela escolha musical era sinal de que o guia e o motorista eram pessoas avisadas e modernas e que não seguem os dogmas habituais do turismo massificado. Chegada a esta conclusão, continuei a sentir-me feliz e confortável.
Continua
Segunda-feira, Junho 15, 2009
Uifa: a Energia dos Incas VI
Capítulo 4 - Cusco
parte 2
Já eram quase quatro horas da tarde quando me lembrei que estava com fome. Afinal de contas a última refeição que tive foi o jantar do dia anterior, que foi vomitado no avião, nessa manhã. Resolvemos ir petiscar qualquer coisa num restaurante que tinha um varandim lindíssimo em madeira pintada de azul celeste. Por sorte, conseguimos a mesa que estava no varandim, aberto directamente para a Plaza de Armas e para a catedral. Sentámo-nos, apreciando a vista e a música alegre do restaurante. O senhor entregou-nos o menu e retirou-se. Optando por ler o menu em espanhol, segura dos meus conhecimentos da língua adquiridos no curso que tirei, vi um item que me despertou a atenção: papas freídas. Apesar de ter fome, sentia que o meu estômago ainda não estava a cem por cento e, comparando com as alternativas propostas no menu, achei por bem comer umas papas, um alimento simples e que sustenta, para não ferir mais o meu massacrado estômago.
Perguntei ao empregado no meu melhor castelhano se as papas seriam de milho. Estava a começar a desenvolver uma fantasia sobre uma refeição de qualquer coisa parecida com polenta, que adoro. No, señorita. Las papas son uno tubérculo de acá, muy típico del Perú. Es del tamaño de un puño y se hace así. E fez os gestos de quem descasca a mão fechada. Después se cortan y se frían. Ah bueno, disse eu. ¿Y es posible hervirlas? Es que tengo el estómago revuelto y… Si claro, señorita, las haré hervidas. Son muy buenas para su estómago. Muchas gracias señor.
Contente por ir experimentar um tubérculo típico do Peru, pedimos o resto das coisas e aguardamos. Como é usual no serviço de restauração, vieram primeiro as bebidas. Tínhamos pedido chá de coca! A folha de coca faz parte do dia-a-dia dos peruanos, principalmente dos índios. Aliás, fiquei fascinada com a miríade de soluções gastronómicas para a folha de coca. A lista é praticamente interminável, mas o mais visto era chá “coca matte”, rebuçados de coca, bolachas e barritas de cereais com coca e o mais típico de tudo, o chá de folhas frescas de coca.
Colocaram sobre a mesa as canecas de barro com folhas frescas de coca a boiar na água quente. Rimos todos como crianças traquinas na eminência de mais uma partida. Beber aquele chá tinha, literalmente, um sabor a Proibido. A coca tem aquela áurea malévola, pelo menos para os ocidentais, associada ao consumo e tráfico da cocaína, mas na realidade a folha de coca é uma verdadeira caixa de Pandora para a medicina, devido às suas propriedades terapêuticas e medicinais.
A Erythroxylum coca é um arbusto originário do Peru, de onde se pode utilizar as folhas, os frutos e a casca. As folhas e as cascas contêm catorze alcalóides, treze dos quais encerram proteínas, vitaminas, fibras, cálcio, fósforo e ferro. O décimo quarto alcalóide, infelizmente o mais famoso de todos, é o responsável pela obtenção da cocaína.
As folhas de kuka (coca em Quechua) têm propriedades analgésicas conhecidas desde os incas, que as mascavam, prática corrente hoje em dia, inclusive por mim, durante o famoso “Camino Inka”. A coca previne úlceras e gastrites, reduz o mal-estar causado pela altitude, reduz o cansaço, a fome e a sede (factores importantes quando se caminha muitos quilómetros a altitudes elevadas), melhora o funcionamento do fígado e da vesícula, é diurética (mesmo muito! Eu comprovei às minhas próprias custas), regula a melanina da pele e, ainda por cima, funciona como pasta de dentes, pois previne cáries. Em termos religiosos, a coca é crucial para os incas nas oferendas que fazem à Montanha, ao Sol e à Terra, usando três folhas em leque seguras por três dedos, invocando os três reinos sagrados.
Concluindo, a Erythroxylum coca é bem mais (e bem melhor) do que aquele famigerado alcalóide! Por isso, bebi chá de folhas de coca que nem uma maluca e masquei folhas de coca que nem uma maluca. E vivam os produtos naturais! Isto para dizer que aquela caneca de barro foi o primeiro chá de coca, dos muitos que bebi naquele país.
Passado pouco tempo depois da chegada dos chás, os pratos foram servidos. O famoso tubérculo peruano apresentava-se fatiado e fumegante num pequeno monte. Olhei para aquilo com ar desconfiado, porque me pareciam batatas cozidas. Cheirava a batata cozida e pareciam batatas cozidas cortadas às fatias. Completamente em negação, tive de provar o equivalente a três milímetros cúbicos para retirar qualquer dúvida existente ainda. Sabia a batatas cozidas! Estava eu na expectativa de comer papas de um tubérculo qualquer que não existisse em Portugal e oferecem-me um prato de batatas cozidas, o prato mais desenxabido de toda a culinária, a nível planetário?
Obriguei os meus amigos a provarem (e comprovarem) que o que se encontrava no meu prato eram batatas cozidas. Chamei o empregado de mesa. Perdone, ¿Esto son las papas? Sí señorita. Las papas, uno tubérculo muy típico de acá. Suspirei. Y dime, ¿Cómo se dice papas en España? ¡Patatas! Fiquei a olhar com cara de parva para o empregado de mesa durante uns vinte segundos, em silêncio. Pois, logo vi… Realmente as batatas são originárias do Peru, eu sabia isso. Tal como são também o milho, a quinoa e tantos outros alimentos consumidos na Europa. Mas até aquele momento, nunca me passou pela cabeça que ia comer um prato de batatas cozidas, sem acompanhamento, assim a seco. Estas idiossincrasias da língua espanhola / castelhana tinham de dar para o torto um dia destes…
Enquanto os meus amigos deleitavam-se com sopas de excelente aspecto e aroma, eu preparei-me para iniciar o meu sensaborão prato. Pedi o aceite de oliva e temperei o famoso tubérculo. Afinal, as batatas eram muito saborosas. Nada comparadas com muitas que como em Portugal, que por vezes são farinhentas. Comi com gosto e fiquei satisfeita. Afinal de contas a batata é um alimento muito rico e completo. Dadas as minhas próprias particularidades estomacais, foi a melhor refeição que podia ter tido naquele dia. Depois do almoço tardio, ficámos ali no varandim, a apreciar o Sol e a paisagem e a deixarmos a preguiça tomar conta dos nossos corpos. Bebericávamos o chá de folhas de coca ao ritmo da modorra típica de quem não tem horários nem obrigações.
Em frente à Catedral de Cusco, esvoaçavam duas grandes bandeiras, que pareciam hipnotizar-me. Uma era branca e vermelha, a do Peru. A outra era um enorme arco-íris, com as sete cores desenhadas na horizontal. Pensei espantada que Cusco tinha de ser muito moderna, para se apresentar na sua totalidade como uma cidade gay friendly. Nem mesmo Londres, com toda a sua multi-culturalidade ostenta na Praça de Trafalgar, por exemplo, uma bandeira com o arco-íris, símbolo internacional do movimento homossexual. Não podemos negar que o nicho de mercado para casais gay tem grande potencial, visto ter um bom poder de compra. Mas seria mesmo Cusco uma cidade gay friendy? Partilhei com os meus companheiros estas minhas considerações sobre os cusquenhos, sabendo de antemão o quão católico é o Peru e a quantidade de problemas que tal decisão poderia ter levantado à cidade e à sua "alcaideza".
“Qual gay, qual carapuça! Oh Susana, então não sabes que o arco-íris é a bandeira de Cusco?” O meu devaneio por um planeta mais igualitário e sem preconceitos, mesmo com veios capitalistas, desvaneceu-se naquele instante. A simbologia é antiga, proveniente dos Incas, que consideravam o arco-íris uma manifestação dos deuses e o número sete (juntamente com o número três), um número sagrado.
Antes que a preguiça nos vencesse, resolvemos pagar e sair, para mais um passeio aleatório pelas ruas movimentadas. Ainda tínhamos de preparar a mala, o famoso duffle bag, para o dia seguinte e para a grande caminhada. Existiam muitas boticas, lojas que vendiam sumos de fruta e pequenas mercearias. Estas expunham as famosas “papas”, os diferentes tipos de milho para consumo humano e, pendurados de um gancho por um cordel, uns animais secos, do tamanho de ratos. Que bicho seria aquele? Estavam completamente irreconhecíveis, assim secos e esticados. Lembravam-me vagamente os polvos que a minha avó punha a secar no estendal do quintal, com pauzinhos que esticavam a cabeça e os tentáculos, de modo a apanharem sol por igual. Sabiam muito bem assados na brasa, depois de secos. O bicho fazia impressão. O corpo seco, as patitas curtas e esticadas post mortem, o oco protuberante dos olhos… Não eram coelhos, mas seriam mesmo ratos? Bom, e se fossem? Não podemos criticar tão facilmente os hábitos de outras culturas. Nós não comemos caracóis? Porque é que os peruanos não podem comer ratos?
Na mercearia seguinte voltei a ver os pobres bichos secos à porta. Se os visse vivos, deveria ser capaz de os reconhecer, mas assim era impossível. Entrei e perguntei. Hola, ¿puede decirme el nombre de esto? E apontei para os animais secos. O senhor do lado de lá do balcão de madeira respondeu. Hola señorita. Esos son cuy, muy buenos para comer. E faz o gesto de comer, levando a mão à boca duas vezes. Escaldada com o episódio das "papas", resolvi contra atacar o quanto antes. Dime, y en España, ¿como se dice? Se dice cuy, señorita. Mau! O questionário não estava a correr da maneira prevista. O idoso sorria solícito, aparentemente contente por me estar a ajudar. O problema é que eu continuava com o mesmo nível de conhecimento de antes de ter entrado na mercearia.
Suspirei fundo, resignada em sair da mercearia sem o nome do bicho, até que do interior da loja saiu uma rapariga dos seus doze ou catorze anos. Esperançada direccionei as minhas baterias na sua direcção. Hola, ¿sabes el nombre del cuy en inglés? Si señorita sé, es guinea pig. O velhote sorria abanando a cabeça em sucessivos assentimentos. Guinea pig? Mas isso é porquinho-da-índia! Eles secam porquinhos-da-índia e comem-nos?! Agora entendo o porquê das T-shirts com cartoons de ratos dentro de caldeirões com incas à volta, felizes. Não eram ratos, eram cuy, porquinhos-da-índia!
Finalmente satisfeita com o nível de conhecimento atingido, dirigimo-nos ao hotel para prepararmos os duffle bags. Naquele país, tal como em muitos países pela Europa fora, usam-se muitas expressões americanas. Outro exemplo da globalização? Duffle bag é o nome usual para o saco de desporto vermelho que foi distribuído a cada caminheiro. Tínhamos direito a até sete quilos de pertences, incluindo roupas e produtos de higiene pessoal. Havia inclusive uma balança no átrio do hotel para confirmarmos o peso. Muitas pessoas chegavam lá e tinham de regressar aos quartos para retirar coisas. A azáfama nas escadas do hotel era grande, com as viagens de ida e volta entre quartos e a balança. O peso dos sacos e o “peso” da altitude ainda a se fazer sentir, faziam as escadas ser duplamente penosas. Alguns dos meus futuros companheiros de caminhada que se cruzavam comigo, principalmente o rapaz americano com ar de sem abrigo e a senhora ruiva canadiana perguntavam-me pela minha saúde. Eram todos muito simpáticos e prometia ser um grupo bem-disposto.
Para arrumar o meu duffle bag, tive de me munir de um grande pragmatismo. Desfiz a minha grande mala e coloquei todos os meus pertences, roupas e acessórios de caminhada geometricamente alinhados em cima da cama não usada. A uma conclusão já eu tinha chegado: a mochila nova de quarenta mais dez litros, um modelo especialmente concebido para mulheres, não iria ser necessária. De resto, era uma questão de olhar para tudo aquilo que tinha trazido e ver o que era prioritário e o que era secundário. Para planear uma caminhada, existem três itens fundamentais que não podem ser esquecidos: água, comida e agasalhos (sejam para o frio ou para a chuva). Tudo o resto é acessório.
Com esta regra simples em mente comecei a colocar roupa para quatro dias na outra cama. Gorro, luvas e cachecol foram a seguir. Saco cama era também fundamental. Frasquinhos de sabonete líquido mais champô e os toalhetes húmidos, idem aspas. Máquina fotográfica, mini tripé e pilhas extras também mudaram de cama. Eu sabia que a organização ia fornecer água purificada e refeições vegetarianas, mas como a água purificada sabe mal, decidi levar água engarrafa e barras energéticas. A água engarrafada seria um luxo desnecessário consciente (peso extra), mas as barras energéticas serviriam de lanches e também de refeições, caso a logística da empresa com os pratos vegetarianos falhasse, como é (infelizmente) muito usual.
Facilmente atingi e ultrapassei os sete quilos permitidos. É impressionante a diferença que faz uns gramas em objectos que achamos necessários. Os meus pertences passavam de uma cama para a outra várias vezes, tentando encontrar o Zen para o duffle bag. Prescindi do canivete suíço (não seria necessário abrir latas), do Moleskine (tiraria notas de memória quando regressasse), da barra de chocolate de cozinha (o meu preferido) e do cantil de alumínio (sempre são 150g), mas não prescindi do saco com mangueira para a água, de uma manta polar extra e de um miminho especial que tinha trazido para festejar a chegada a Machu Picchu. Depois de ser necessário pedir ajuda para fechar o saco, desci as escadas para pesar o duffle bag uma última vez. A agulha indicava sete quilos certos. Finalmente o Zen!
Depois de arrumados os sacos, nós os cinco saímos para jantar, desfrutando da última noite em Cusco, antes da partida para Machu Picchu, através do famoso Camino Inka.
Continua
parte 2
Já eram quase quatro horas da tarde quando me lembrei que estava com fome. Afinal de contas a última refeição que tive foi o jantar do dia anterior, que foi vomitado no avião, nessa manhã. Resolvemos ir petiscar qualquer coisa num restaurante que tinha um varandim lindíssimo em madeira pintada de azul celeste. Por sorte, conseguimos a mesa que estava no varandim, aberto directamente para a Plaza de Armas e para a catedral. Sentámo-nos, apreciando a vista e a música alegre do restaurante. O senhor entregou-nos o menu e retirou-se. Optando por ler o menu em espanhol, segura dos meus conhecimentos da língua adquiridos no curso que tirei, vi um item que me despertou a atenção: papas freídas. Apesar de ter fome, sentia que o meu estômago ainda não estava a cem por cento e, comparando com as alternativas propostas no menu, achei por bem comer umas papas, um alimento simples e que sustenta, para não ferir mais o meu massacrado estômago.
Perguntei ao empregado no meu melhor castelhano se as papas seriam de milho. Estava a começar a desenvolver uma fantasia sobre uma refeição de qualquer coisa parecida com polenta, que adoro. No, señorita. Las papas son uno tubérculo de acá, muy típico del Perú. Es del tamaño de un puño y se hace así. E fez os gestos de quem descasca a mão fechada. Después se cortan y se frían. Ah bueno, disse eu. ¿Y es posible hervirlas? Es que tengo el estómago revuelto y… Si claro, señorita, las haré hervidas. Son muy buenas para su estómago. Muchas gracias señor.
Contente por ir experimentar um tubérculo típico do Peru, pedimos o resto das coisas e aguardamos. Como é usual no serviço de restauração, vieram primeiro as bebidas. Tínhamos pedido chá de coca! A folha de coca faz parte do dia-a-dia dos peruanos, principalmente dos índios. Aliás, fiquei fascinada com a miríade de soluções gastronómicas para a folha de coca. A lista é praticamente interminável, mas o mais visto era chá “coca matte”, rebuçados de coca, bolachas e barritas de cereais com coca e o mais típico de tudo, o chá de folhas frescas de coca.
Colocaram sobre a mesa as canecas de barro com folhas frescas de coca a boiar na água quente. Rimos todos como crianças traquinas na eminência de mais uma partida. Beber aquele chá tinha, literalmente, um sabor a Proibido. A coca tem aquela áurea malévola, pelo menos para os ocidentais, associada ao consumo e tráfico da cocaína, mas na realidade a folha de coca é uma verdadeira caixa de Pandora para a medicina, devido às suas propriedades terapêuticas e medicinais.
A Erythroxylum coca é um arbusto originário do Peru, de onde se pode utilizar as folhas, os frutos e a casca. As folhas e as cascas contêm catorze alcalóides, treze dos quais encerram proteínas, vitaminas, fibras, cálcio, fósforo e ferro. O décimo quarto alcalóide, infelizmente o mais famoso de todos, é o responsável pela obtenção da cocaína.
As folhas de kuka (coca em Quechua) têm propriedades analgésicas conhecidas desde os incas, que as mascavam, prática corrente hoje em dia, inclusive por mim, durante o famoso “Camino Inka”. A coca previne úlceras e gastrites, reduz o mal-estar causado pela altitude, reduz o cansaço, a fome e a sede (factores importantes quando se caminha muitos quilómetros a altitudes elevadas), melhora o funcionamento do fígado e da vesícula, é diurética (mesmo muito! Eu comprovei às minhas próprias custas), regula a melanina da pele e, ainda por cima, funciona como pasta de dentes, pois previne cáries. Em termos religiosos, a coca é crucial para os incas nas oferendas que fazem à Montanha, ao Sol e à Terra, usando três folhas em leque seguras por três dedos, invocando os três reinos sagrados.
Concluindo, a Erythroxylum coca é bem mais (e bem melhor) do que aquele famigerado alcalóide! Por isso, bebi chá de folhas de coca que nem uma maluca e masquei folhas de coca que nem uma maluca. E vivam os produtos naturais! Isto para dizer que aquela caneca de barro foi o primeiro chá de coca, dos muitos que bebi naquele país.
Passado pouco tempo depois da chegada dos chás, os pratos foram servidos. O famoso tubérculo peruano apresentava-se fatiado e fumegante num pequeno monte. Olhei para aquilo com ar desconfiado, porque me pareciam batatas cozidas. Cheirava a batata cozida e pareciam batatas cozidas cortadas às fatias. Completamente em negação, tive de provar o equivalente a três milímetros cúbicos para retirar qualquer dúvida existente ainda. Sabia a batatas cozidas! Estava eu na expectativa de comer papas de um tubérculo qualquer que não existisse em Portugal e oferecem-me um prato de batatas cozidas, o prato mais desenxabido de toda a culinária, a nível planetário?
Obriguei os meus amigos a provarem (e comprovarem) que o que se encontrava no meu prato eram batatas cozidas. Chamei o empregado de mesa. Perdone, ¿Esto son las papas? Sí señorita. Las papas, uno tubérculo muy típico de acá. Suspirei. Y dime, ¿Cómo se dice papas en España? ¡Patatas! Fiquei a olhar com cara de parva para o empregado de mesa durante uns vinte segundos, em silêncio. Pois, logo vi… Realmente as batatas são originárias do Peru, eu sabia isso. Tal como são também o milho, a quinoa e tantos outros alimentos consumidos na Europa. Mas até aquele momento, nunca me passou pela cabeça que ia comer um prato de batatas cozidas, sem acompanhamento, assim a seco. Estas idiossincrasias da língua espanhola / castelhana tinham de dar para o torto um dia destes…
Enquanto os meus amigos deleitavam-se com sopas de excelente aspecto e aroma, eu preparei-me para iniciar o meu sensaborão prato. Pedi o aceite de oliva e temperei o famoso tubérculo. Afinal, as batatas eram muito saborosas. Nada comparadas com muitas que como em Portugal, que por vezes são farinhentas. Comi com gosto e fiquei satisfeita. Afinal de contas a batata é um alimento muito rico e completo. Dadas as minhas próprias particularidades estomacais, foi a melhor refeição que podia ter tido naquele dia. Depois do almoço tardio, ficámos ali no varandim, a apreciar o Sol e a paisagem e a deixarmos a preguiça tomar conta dos nossos corpos. Bebericávamos o chá de folhas de coca ao ritmo da modorra típica de quem não tem horários nem obrigações.
Em frente à Catedral de Cusco, esvoaçavam duas grandes bandeiras, que pareciam hipnotizar-me. Uma era branca e vermelha, a do Peru. A outra era um enorme arco-íris, com as sete cores desenhadas na horizontal. Pensei espantada que Cusco tinha de ser muito moderna, para se apresentar na sua totalidade como uma cidade gay friendly. Nem mesmo Londres, com toda a sua multi-culturalidade ostenta na Praça de Trafalgar, por exemplo, uma bandeira com o arco-íris, símbolo internacional do movimento homossexual. Não podemos negar que o nicho de mercado para casais gay tem grande potencial, visto ter um bom poder de compra. Mas seria mesmo Cusco uma cidade gay friendy? Partilhei com os meus companheiros estas minhas considerações sobre os cusquenhos, sabendo de antemão o quão católico é o Peru e a quantidade de problemas que tal decisão poderia ter levantado à cidade e à sua "alcaideza".
“Qual gay, qual carapuça! Oh Susana, então não sabes que o arco-íris é a bandeira de Cusco?” O meu devaneio por um planeta mais igualitário e sem preconceitos, mesmo com veios capitalistas, desvaneceu-se naquele instante. A simbologia é antiga, proveniente dos Incas, que consideravam o arco-íris uma manifestação dos deuses e o número sete (juntamente com o número três), um número sagrado.
Antes que a preguiça nos vencesse, resolvemos pagar e sair, para mais um passeio aleatório pelas ruas movimentadas. Ainda tínhamos de preparar a mala, o famoso duffle bag, para o dia seguinte e para a grande caminhada. Existiam muitas boticas, lojas que vendiam sumos de fruta e pequenas mercearias. Estas expunham as famosas “papas”, os diferentes tipos de milho para consumo humano e, pendurados de um gancho por um cordel, uns animais secos, do tamanho de ratos. Que bicho seria aquele? Estavam completamente irreconhecíveis, assim secos e esticados. Lembravam-me vagamente os polvos que a minha avó punha a secar no estendal do quintal, com pauzinhos que esticavam a cabeça e os tentáculos, de modo a apanharem sol por igual. Sabiam muito bem assados na brasa, depois de secos. O bicho fazia impressão. O corpo seco, as patitas curtas e esticadas post mortem, o oco protuberante dos olhos… Não eram coelhos, mas seriam mesmo ratos? Bom, e se fossem? Não podemos criticar tão facilmente os hábitos de outras culturas. Nós não comemos caracóis? Porque é que os peruanos não podem comer ratos?
Na mercearia seguinte voltei a ver os pobres bichos secos à porta. Se os visse vivos, deveria ser capaz de os reconhecer, mas assim era impossível. Entrei e perguntei. Hola, ¿puede decirme el nombre de esto? E apontei para os animais secos. O senhor do lado de lá do balcão de madeira respondeu. Hola señorita. Esos son cuy, muy buenos para comer. E faz o gesto de comer, levando a mão à boca duas vezes. Escaldada com o episódio das "papas", resolvi contra atacar o quanto antes. Dime, y en España, ¿como se dice? Se dice cuy, señorita. Mau! O questionário não estava a correr da maneira prevista. O idoso sorria solícito, aparentemente contente por me estar a ajudar. O problema é que eu continuava com o mesmo nível de conhecimento de antes de ter entrado na mercearia.
Suspirei fundo, resignada em sair da mercearia sem o nome do bicho, até que do interior da loja saiu uma rapariga dos seus doze ou catorze anos. Esperançada direccionei as minhas baterias na sua direcção. Hola, ¿sabes el nombre del cuy en inglés? Si señorita sé, es guinea pig. O velhote sorria abanando a cabeça em sucessivos assentimentos. Guinea pig? Mas isso é porquinho-da-índia! Eles secam porquinhos-da-índia e comem-nos?! Agora entendo o porquê das T-shirts com cartoons de ratos dentro de caldeirões com incas à volta, felizes. Não eram ratos, eram cuy, porquinhos-da-índia!
Finalmente satisfeita com o nível de conhecimento atingido, dirigimo-nos ao hotel para prepararmos os duffle bags. Naquele país, tal como em muitos países pela Europa fora, usam-se muitas expressões americanas. Outro exemplo da globalização? Duffle bag é o nome usual para o saco de desporto vermelho que foi distribuído a cada caminheiro. Tínhamos direito a até sete quilos de pertences, incluindo roupas e produtos de higiene pessoal. Havia inclusive uma balança no átrio do hotel para confirmarmos o peso. Muitas pessoas chegavam lá e tinham de regressar aos quartos para retirar coisas. A azáfama nas escadas do hotel era grande, com as viagens de ida e volta entre quartos e a balança. O peso dos sacos e o “peso” da altitude ainda a se fazer sentir, faziam as escadas ser duplamente penosas. Alguns dos meus futuros companheiros de caminhada que se cruzavam comigo, principalmente o rapaz americano com ar de sem abrigo e a senhora ruiva canadiana perguntavam-me pela minha saúde. Eram todos muito simpáticos e prometia ser um grupo bem-disposto.
Para arrumar o meu duffle bag, tive de me munir de um grande pragmatismo. Desfiz a minha grande mala e coloquei todos os meus pertences, roupas e acessórios de caminhada geometricamente alinhados em cima da cama não usada. A uma conclusão já eu tinha chegado: a mochila nova de quarenta mais dez litros, um modelo especialmente concebido para mulheres, não iria ser necessária. De resto, era uma questão de olhar para tudo aquilo que tinha trazido e ver o que era prioritário e o que era secundário. Para planear uma caminhada, existem três itens fundamentais que não podem ser esquecidos: água, comida e agasalhos (sejam para o frio ou para a chuva). Tudo o resto é acessório.
Com esta regra simples em mente comecei a colocar roupa para quatro dias na outra cama. Gorro, luvas e cachecol foram a seguir. Saco cama era também fundamental. Frasquinhos de sabonete líquido mais champô e os toalhetes húmidos, idem aspas. Máquina fotográfica, mini tripé e pilhas extras também mudaram de cama. Eu sabia que a organização ia fornecer água purificada e refeições vegetarianas, mas como a água purificada sabe mal, decidi levar água engarrafa e barras energéticas. A água engarrafada seria um luxo desnecessário consciente (peso extra), mas as barras energéticas serviriam de lanches e também de refeições, caso a logística da empresa com os pratos vegetarianos falhasse, como é (infelizmente) muito usual.
Facilmente atingi e ultrapassei os sete quilos permitidos. É impressionante a diferença que faz uns gramas em objectos que achamos necessários. Os meus pertences passavam de uma cama para a outra várias vezes, tentando encontrar o Zen para o duffle bag. Prescindi do canivete suíço (não seria necessário abrir latas), do Moleskine (tiraria notas de memória quando regressasse), da barra de chocolate de cozinha (o meu preferido) e do cantil de alumínio (sempre são 150g), mas não prescindi do saco com mangueira para a água, de uma manta polar extra e de um miminho especial que tinha trazido para festejar a chegada a Machu Picchu. Depois de ser necessário pedir ajuda para fechar o saco, desci as escadas para pesar o duffle bag uma última vez. A agulha indicava sete quilos certos. Finalmente o Zen!
Depois de arrumados os sacos, nós os cinco saímos para jantar, desfrutando da última noite em Cusco, antes da partida para Machu Picchu, através do famoso Camino Inka.
Continua
Terça-feira, Maio 19, 2009
Uifa: a Energia dos Incas V
Capítulo 4 - Cusco
parte 1
Cusco fica rodeada por montanhas por todos os lados, parecendo que estamos dentro de uma tigela de cereais gigante, onde mais de trezentos mil cereais (habitantes) vivem dentro dessa tigela. O nome em Quechua (Qosqo) significa umbigo. A cidade é literalmente o centro, o cerne do antigo império Inca que geograficamente é simbolizado pela Plaza de Armas, local de onde saíam quatro estradas apontadas aos quatro pontos cardeais, que iam em direcção aos quatro cantos desse grande império sul-americano.
Devido à altitude (mais ou menos três mil e quatrocentos metros), custa muito a respirar pois o ar contém menos oxigénio que ao nível do mar. Os tubos de escape dos carros sem catalisadores ou outras preocupações ecológicas pioram a situação. Mas a circunstância de estarmos em tão carismática cidade e de o dia estar luminoso e quente, sempre ajudava a esquecer essa dificuldade.
Até para atravessar a estrada a passo de corrida para evitar um automóvel, cansava-me. Tínhamos de andar devagar, para adaptarmos o nosso organismo à menor quantidade de oxigénio no ar. A rigor, não tínhamos pressa, apenas um desassossego quase infantil para descobrirmos todos os encantos daquela cidade cheia de vida.
No meu entender, a vida activa e alegre de Cusco provém de dois factores principais. O primeiro é a existência da Universidad Nacional de San Antonio Abad del Cusco fundada no século XVII, que chama até si uma população extra e jovem. O segundo factor é o turismo (principalmente eco-turismo e de aventura), que atrai inúmeras pessoas de inúmeras nacionalidades (principalmente jovens mochileiros e caminheiros de todas as idades). Estes dois factores fazem com que Cusco seja uma cidade alegre, divertida e cosmopolita.
Outro factor importante é um comércio dinâmico, à base de lojas de rua e de vendedores ambulantes. Existem vendedores ambulantes a vender pequenos recuerdos, bebidas (principalmente Inka Cola – um refrigerante amarelo fluorescente com sabor a remédio para as baratas e Cusqueña, a cerveja local – loura ou preta), aperitivos (empadas sabe-se lá do quê, maçarocas de milho doce, fatias de ananás artisticamente cortadas, pipocas gigantes de um milho especial e até pequenas refeições de espetadas de carne grelhada ou frita. E tudo isto fora da alçada da ASAE. Que maravilha!
Passeávamos na rua observando tudo e todos. As ruas, as pessoas, os cães vadios, as janelas, as portas, as montras das lojas, as pedras, tudo era novidade; tudo era motivo de interesse. Vimos três rapariguitas Quechua vestidas a rigor, uma com um lama bebé ao colo, as outras duas com cordeiros bebés. Como turistas ingénuos e desatentos que éramos, tirámos uma fotografia às crianças. É evidente que elas depois do clic foram cobrar o “cachet” pela pose artística. Daquela vez caí na armadilha, mas nunca mais tirei fotografias a índios vestidos a rigor, apesar de ter visto vários, tanto adultos como crianças, com lamas engalanados com lãs coloridas.
Depois ter pago os três soles exigidos, continuámos a passear, mas agora com mais atenção às casas. Essas talvez não fossem atrás de nós pedir dinheiro pelas fotografias. A maioria dos edifícios no centro de Cusco é do tempo colonial, edifícios esses que foram construídos sobre edifícios incas religiosos ou governamentais destruídos pelos espanhóis. Por este motivo, é habitual ver duas paredes distintas em quase todas as construções. A metade inferior, a parede inca de pedra, famosa pelas suas junções perfeitas sem argamassa onde não cabe uma lâmina; a metade superior, a parede típica dos países mediterrânicos pintada de branco, mas com varandins em madeira, trabalhos fabulosos de entalhamento. Muitos dos quarteirões têm acesso livre para pátios tipicamente andaluzes, onde há comércio de artesanato e muitos restaurantes.
Surpreendeu-me ver tantas lojas especializadas em materiais de belas-artes, mas depois de saber da existência da universidade e do curso respectivo percebi a razão. Quando passava à porta de uma dessas lojas, passava devagarinho, olhando para os pincéis de pêlo de marta, para as embalagens de lápis e pastéis Caran Dache, para os papéis Canson, para as paletas fabulosas dos óleos Van Gogh… Passava com um misto de nostalgia e ressentimento, lembrando-me do meu décimo segundo ano de escolaridade. Em concreto, lembrava-me daquela minha professora de Desenho que um dia me informou de forma implícita que se continuasse a trabalhar com os meus lápis e pastéis de marca desconhecida (vulgo: mais barata) e não comprasse material da Caran Dache, a minha nota sofreria consequências graves. Nesse dia cheguei a casa muito enervada, e foi entre lágrimas que relatei o acontecimento à minha mãe. Ciente de que a minha média para o acesso ao ensino superior podia baixar bastante, no dia seguinte a minha mãe pegou em mim e fomos as duas até à papelaria do bairro comprar uma caixa de lápis e outra de pastéis da marca preferida da minha professora de Desenho.
De regresso às aulas continuei a desenhar com os mesmos erros de proporcionalidade, mas para a s’tora parecia não haver motivos de preocupação ou correcção; o importante era que agora já usava lápis Caran Dache. A verdade é que não ingressei no ensino superior nesse ano, mas mesmo assim foi uma lição que aprendi com dificuldade. Não por incompreensão da mensagem, mas por a considerar altamente injusta e de uma ignorância atroz. Talvez devido a esse episódio, ou porque na altura foi com dificuldade que se comprou aquele material, usei com tal aprumo e parcimónia os lápis e os pastéis que hoje (mais de quinze anos volvidos) ainda os tenho a todos, uns mais usados que outros é claro, mas todos alinhados nas posições originais e em perfeitas condições de usabilidade.
Estas considerações demoravam meio segundo, o tempo necessário para, em dois passos, ultrapassar a ombreira da loja e continuar no passeio. Outras casas de comércio chamavam a minha atenção, porém, as que mais me espantaram foram as casas de massagens e SPAs. O índice per capita era desmedido! E não estou a falar de “massagens” (que também as havia); estou a falar de massagens, realizadas por pessoas com formação profissional específica em shiatsu, acupunctura ou outras técnicas do género. Em cada esquina há pessoas a distribuir brochuras publicitando massagens e nas fachadas pululam placares pendurados das janelas proclamando preços e durações das ditas. Há inclusive a “Inca Massage” que, pelo que consegui averiguar, utiliza pedras quentes. Existem casas para todos os gostos e bolsas; umas mais sofisticadas e modernas, outras mais rústicas e improvisadas, mas todas com agendas preenchidas.
Voltámos à Plaza de Armas, ao umbigo do Puma. Diz a lenda que Cusco foi inicialmente desenhada com a forma de um puma e que a sua praça maior estava situada no umbigo. Isto porque o puma é um animal sagrado para os incas, o representante do Reino dos Vivos. Os outros dois reinos são o dos Deuses ou Superior, representado pelo Condor e o dos Mortos ou Inferior, representado pela Serpente.
Sentámo-nos num banco de jardim no centro da praça, perto do espelho de água com repuxo, para descansar um pouco. A adaptação à altitude é lenta. Índias passavam com longas tranças negras atadas nas pontas, chapéu enfeitado (item de importância capital) e saias garridas com muitos saiotes. Polícias de luvas brancas controlavam os vendedores ambulantes de forma a não apoquentarem demasiado os turistas. Estes fotografavam-se perto do repuxo ou enquadravam-se a meio da fachada da catedral. Mais do que numa capital europeia, sentia-me ali no centro do mundo. Conseguiam-se ouvir duas ou três línguas diferentes ao mesmo tempo, sem contar com o espanhol e o Quechua. Os turistas vestiam T-shirts humorísticas com emblemas peruanos e gorros típicos feitos com lãs coloridas. Esses emblemas eram basicamente a Inca Kola, a Cusqueña, a folha de coca, o cuy e Machu Picchu mais o seu Camino Inka.
Continua
parte 1
Cusco fica rodeada por montanhas por todos os lados, parecendo que estamos dentro de uma tigela de cereais gigante, onde mais de trezentos mil cereais (habitantes) vivem dentro dessa tigela. O nome em Quechua (Qosqo) significa umbigo. A cidade é literalmente o centro, o cerne do antigo império Inca que geograficamente é simbolizado pela Plaza de Armas, local de onde saíam quatro estradas apontadas aos quatro pontos cardeais, que iam em direcção aos quatro cantos desse grande império sul-americano.
Devido à altitude (mais ou menos três mil e quatrocentos metros), custa muito a respirar pois o ar contém menos oxigénio que ao nível do mar. Os tubos de escape dos carros sem catalisadores ou outras preocupações ecológicas pioram a situação. Mas a circunstância de estarmos em tão carismática cidade e de o dia estar luminoso e quente, sempre ajudava a esquecer essa dificuldade.
Até para atravessar a estrada a passo de corrida para evitar um automóvel, cansava-me. Tínhamos de andar devagar, para adaptarmos o nosso organismo à menor quantidade de oxigénio no ar. A rigor, não tínhamos pressa, apenas um desassossego quase infantil para descobrirmos todos os encantos daquela cidade cheia de vida.
No meu entender, a vida activa e alegre de Cusco provém de dois factores principais. O primeiro é a existência da Universidad Nacional de San Antonio Abad del Cusco fundada no século XVII, que chama até si uma população extra e jovem. O segundo factor é o turismo (principalmente eco-turismo e de aventura), que atrai inúmeras pessoas de inúmeras nacionalidades (principalmente jovens mochileiros e caminheiros de todas as idades). Estes dois factores fazem com que Cusco seja uma cidade alegre, divertida e cosmopolita.
Outro factor importante é um comércio dinâmico, à base de lojas de rua e de vendedores ambulantes. Existem vendedores ambulantes a vender pequenos recuerdos, bebidas (principalmente Inka Cola – um refrigerante amarelo fluorescente com sabor a remédio para as baratas e Cusqueña, a cerveja local – loura ou preta), aperitivos (empadas sabe-se lá do quê, maçarocas de milho doce, fatias de ananás artisticamente cortadas, pipocas gigantes de um milho especial e até pequenas refeições de espetadas de carne grelhada ou frita. E tudo isto fora da alçada da ASAE. Que maravilha!
Passeávamos na rua observando tudo e todos. As ruas, as pessoas, os cães vadios, as janelas, as portas, as montras das lojas, as pedras, tudo era novidade; tudo era motivo de interesse. Vimos três rapariguitas Quechua vestidas a rigor, uma com um lama bebé ao colo, as outras duas com cordeiros bebés. Como turistas ingénuos e desatentos que éramos, tirámos uma fotografia às crianças. É evidente que elas depois do clic foram cobrar o “cachet” pela pose artística. Daquela vez caí na armadilha, mas nunca mais tirei fotografias a índios vestidos a rigor, apesar de ter visto vários, tanto adultos como crianças, com lamas engalanados com lãs coloridas.
Depois ter pago os três soles exigidos, continuámos a passear, mas agora com mais atenção às casas. Essas talvez não fossem atrás de nós pedir dinheiro pelas fotografias. A maioria dos edifícios no centro de Cusco é do tempo colonial, edifícios esses que foram construídos sobre edifícios incas religiosos ou governamentais destruídos pelos espanhóis. Por este motivo, é habitual ver duas paredes distintas em quase todas as construções. A metade inferior, a parede inca de pedra, famosa pelas suas junções perfeitas sem argamassa onde não cabe uma lâmina; a metade superior, a parede típica dos países mediterrânicos pintada de branco, mas com varandins em madeira, trabalhos fabulosos de entalhamento. Muitos dos quarteirões têm acesso livre para pátios tipicamente andaluzes, onde há comércio de artesanato e muitos restaurantes.
Surpreendeu-me ver tantas lojas especializadas em materiais de belas-artes, mas depois de saber da existência da universidade e do curso respectivo percebi a razão. Quando passava à porta de uma dessas lojas, passava devagarinho, olhando para os pincéis de pêlo de marta, para as embalagens de lápis e pastéis Caran Dache, para os papéis Canson, para as paletas fabulosas dos óleos Van Gogh… Passava com um misto de nostalgia e ressentimento, lembrando-me do meu décimo segundo ano de escolaridade. Em concreto, lembrava-me daquela minha professora de Desenho que um dia me informou de forma implícita que se continuasse a trabalhar com os meus lápis e pastéis de marca desconhecida (vulgo: mais barata) e não comprasse material da Caran Dache, a minha nota sofreria consequências graves. Nesse dia cheguei a casa muito enervada, e foi entre lágrimas que relatei o acontecimento à minha mãe. Ciente de que a minha média para o acesso ao ensino superior podia baixar bastante, no dia seguinte a minha mãe pegou em mim e fomos as duas até à papelaria do bairro comprar uma caixa de lápis e outra de pastéis da marca preferida da minha professora de Desenho.
De regresso às aulas continuei a desenhar com os mesmos erros de proporcionalidade, mas para a s’tora parecia não haver motivos de preocupação ou correcção; o importante era que agora já usava lápis Caran Dache. A verdade é que não ingressei no ensino superior nesse ano, mas mesmo assim foi uma lição que aprendi com dificuldade. Não por incompreensão da mensagem, mas por a considerar altamente injusta e de uma ignorância atroz. Talvez devido a esse episódio, ou porque na altura foi com dificuldade que se comprou aquele material, usei com tal aprumo e parcimónia os lápis e os pastéis que hoje (mais de quinze anos volvidos) ainda os tenho a todos, uns mais usados que outros é claro, mas todos alinhados nas posições originais e em perfeitas condições de usabilidade.
Estas considerações demoravam meio segundo, o tempo necessário para, em dois passos, ultrapassar a ombreira da loja e continuar no passeio. Outras casas de comércio chamavam a minha atenção, porém, as que mais me espantaram foram as casas de massagens e SPAs. O índice per capita era desmedido! E não estou a falar de “massagens” (que também as havia); estou a falar de massagens, realizadas por pessoas com formação profissional específica em shiatsu, acupunctura ou outras técnicas do género. Em cada esquina há pessoas a distribuir brochuras publicitando massagens e nas fachadas pululam placares pendurados das janelas proclamando preços e durações das ditas. Há inclusive a “Inca Massage” que, pelo que consegui averiguar, utiliza pedras quentes. Existem casas para todos os gostos e bolsas; umas mais sofisticadas e modernas, outras mais rústicas e improvisadas, mas todas com agendas preenchidas.
Voltámos à Plaza de Armas, ao umbigo do Puma. Diz a lenda que Cusco foi inicialmente desenhada com a forma de um puma e que a sua praça maior estava situada no umbigo. Isto porque o puma é um animal sagrado para os incas, o representante do Reino dos Vivos. Os outros dois reinos são o dos Deuses ou Superior, representado pelo Condor e o dos Mortos ou Inferior, representado pela Serpente.
Sentámo-nos num banco de jardim no centro da praça, perto do espelho de água com repuxo, para descansar um pouco. A adaptação à altitude é lenta. Índias passavam com longas tranças negras atadas nas pontas, chapéu enfeitado (item de importância capital) e saias garridas com muitos saiotes. Polícias de luvas brancas controlavam os vendedores ambulantes de forma a não apoquentarem demasiado os turistas. Estes fotografavam-se perto do repuxo ou enquadravam-se a meio da fachada da catedral. Mais do que numa capital europeia, sentia-me ali no centro do mundo. Conseguiam-se ouvir duas ou três línguas diferentes ao mesmo tempo, sem contar com o espanhol e o Quechua. Os turistas vestiam T-shirts humorísticas com emblemas peruanos e gorros típicos feitos com lãs coloridas. Esses emblemas eram basicamente a Inca Kola, a Cusqueña, a folha de coca, o cuy e Machu Picchu mais o seu Camino Inka.
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Quinta-feira, Abril 16, 2009
Uifa: a Energia dos Incas IV
Capítulo 3 - Ida para Cusco
O telefone tocou. Acordei estremunhada, sem saber onde estava. De olhos fechados tacteei em direcção do som e peguei no auscultador. Sim? Son las três y cuarto, señorita. Hã…? Ah, já sei. Estou no Peru e tenho de ir apanhar um avião para Cusco. Levantei-me ainda de olhos fechados. Pus os óculos e decidi só abrir um dos meus olhos míopes, para ir à casa de banho. O puma olhava para mim com o mesmo sorriso naif de há tão poucas horas.
Já com tudo organizado e arrumado, decidi comer um bocado de pão que tinha na mochila, mesmo seco, pois tinham-nos avisado que o hotel não forneceria pequeno-almoço àquela hora absurda. Também não tinha muita fé na pseudo-comida que iria ser distribuída no avião.
Sentia-me estupidamente mal disposta, mas entendi que era resultado das poucas horas que tinha dormido e lá me arrastei mais ao saco de viagem para o autocarro que nos esperava na rua. Outras pessoas também entraram, conseguindo eu ter uma ideia preliminar dos meus futuros companheiros de caminhada.
Aquela agente de ligação da empresa de caminhadas era baixinha e rechonchuda e quando sorria fazia umas bochechas engraçadas. Mesmo a tão matutina hora, conseguia ter um ar divertido e bem disposto. Contudo, era extremamente irritante. Tinha voz anasalada, facto que me disturba muito e falava mal inglês com muitas expressões americanas como por exemplo guys, hey, folks, huh e yeah.
Levou o caminho todo a falar até ao aeroporto, sobre uma greve geral nacional que ia ter lugar nessa semana, mas que não nos ia afectar. Então porque é que estava a falar dela? Queria lá saber! Eu estava duplamente mal disposta (do sono e do estômago) e só queria que aquela voz de gaivota se calasse. Ia encolhida no banco do autocarro, tentando visualizar-me enroscada na manta polar do puma. Chegados ao aeroporto, a guia deu-nos as últimas indicações, deixando-nos na porta de acesso aos voos domésticos. Antes de entrar no avião, ainda tive tempo de beber um “Coca Matte” (chá de folhas de coca cozidas e moídas), recomendado para as más disposições, mas não me pareceu ter produzido efeito.
Os lugares estavam distribuídos de forma aleatória, o que fez com que eu me sentasse junto a um casal russo e não com o Pedro e o Henrique. Fechei os olhos e tentei ignorar a má disposição. A animação dentro do avião era muita. Afinal de contas íamos todos para Cusco, antiga capital do império Inca, ponto de partida para muitas e inesquecíveis aventuras. Eu não conseguia acompanhar a euforia reinante. Queria ir para Cusco claro, mas sentia-me mesmo muito mal, com a bílis a fazer viagens de ida e volta ininterruptas no esófago. Ia sentada muito direita no banco da coxia, sem ver a paisagem que sobrevoávamos. O casal russo conversava baixinho com olhares furtivos na minha direcção.
A asafata começou a distribuir as caixas com o "pequeno-almoço". Ainda abri a caixa de cartão, pois fui educada que não se deve recusar a comida que nos oferecem, mas a visão dos mini gressinos com sal e das quatro bolachas embaladas em plástico aumentou os meus vómitos. Bebi apenas o chá quente. Respirei fundo e voltei a fechar os olhos. Ouvia as vozes dos meus amigos algures atrás de mim, entusiasmados com a iminente chegada a Cusco.
Comecei a ponderar sobre os efeitos da altitude na má disposição. Será que iria vomitar assim que o avião fizesse a descompressão? Ou será que a altitude iria ter um efeito oposto, curando-me imediatamente? Os cinquenta minutos de voo pareciam intermináveis. Como medida de precaução, procurei o famoso saco de papel nas costas do banco da minha frente e abri-o, ficando a postos no meu colo. Os russos continuavam a falar em sussurros, mas mesmo assim consegui perceber "mal disposta".
Cusco e os seus três mil e quatrocentos metros de altitude aproximavam-se, pois comecei a ouvir vozes exaltadas em inglês a dizer hey, look over there! Duas vozes portuguesas minhas conhecidas juntaram-se às outras dizendo “Olha Susana, estás a ver as montanhas nevadas de Cusco?”. O facto de estar à coxia inviabilizava a possibilidade de ver Cusco de cima, ou mesmo as montanhas, mas mesmo se estivesse à janela, naquele momento eu só via o fundo do saco de papel cheio de Ceviche e de pedaços de pão mal digeridos, tudo a boiar em chá. Enquanto todos se entretinham a ver a suposta beleza de Cusco e suas montanhas altaneiras, eu aterrei na cidade dos Incas a chamar pelo Gregório com toda a força do meu ser.
Sai do avião completamente prostrada. Fico sempre assim quando vomito. Arrastei-me atrás dos outros até à passadeira e esperei pelo meu saco de viagem. Sem forças para o levantar, levei-o de rastos pelo chão. Estava esperançada que o ar fresco da manhã conseguisse dar-me alguma melhora. Um rapaz com ar de sem abrigo, mas que fazia parte do grupo de caminheiros, ajudou-me com a minha bagagem. Era um norte-americano de vinte e dois anos, com calções verde alface fluorescentes acetinados uns dez números acima do dele, cabelo longo desgrenhado e barba rala no queixo. Agradeci-lhe com um sorriso fraco e um thank you very much. Era mesmo o que precisava! Outro homem que me levasse a mala. Tremia tanto que não tinha forças para levar o meu saco até ao minibus.
O ar fresco (e frio) de Cusco pela manhã (Qosqo em Quechua) não me ajudou a melhorar. Pelo contrário. O mau estar estomacal aliviou de alguma forma, mas aumentou a sensação de prostração e juntou-se um peso no peito, falta de ar e algumas tonturas. Esqueci-me que são os efeitos normalíssimos da altitude e associei tudo ao facto de ter vomitado há menos de vinte minutos.
Outra guia de ligação esperava-nos no lado de lá da vedação com uma folha A4 com o nome da empresa, para que soubéssemos que era ela e não outra que nos esperava. Apresentou-se e pediu-nos para entrármos para um minibus da empresa que nos levou até ao hotel. Em Cusco os edifícios não tinham mais de dois pisos, pareciam-me acabados e alguns tinham uma característica que lembrava Portugal: telha de meia cana. Além disso, àquela primeira impressão, pareceu-me uma cidade com mais identidade do que Lima, com mais carácter.
Chegados ao hotel, começaram a fazer a distribuição dos quartos. Desde que arranquei de Portugal que tinha dois receios principais com aquela viagem. O primeiro era a altitude (tinham-me falado cobras e lagartos). O segundo era a parceira de quarto. A empresa de caminhadas com a qual estávamos a viajar, tem a filosofia de colocar sempre duas pessoas do mesmo sexo por quarto. Como o meu grupo era constituído por cinco elementos (três mulheres e dois homens), um de nós (vulgo: eu) teria de partilhar o quarto com uma estrangeira qualquer. Mas não seria apenas o quarto, seria igualmente a tenda durante a caminhada. Três noites em tenda com uma estrangeira desconhecida, com hábitos de dormida e de higiene que provavelmente não têm comparação com os meus.
Parecia-me um problema sério para um antropólogo. Como conviver de forma sã com pessoas de culturas diversas numa tenda de três metros quadrados, durante quatro dias? Um caso de estudo a ponderar para um mestrado em Antropologia Moderna. Sendo uma empresa de caminhadas internacional, podia deparar-me com qualquer nacionalidade. Se fosse uma japonesa? Teria com certeza hábitos estranhos aos meus. E uma mulher do Bangladesh?! Mesmo se fosse uma mulher europeia, os problemas poderiam não ser menores. Por exemplo, uma francesa. Têm fama de não depilarem as axilas… Cheiraria mal? Ressonaria? Conseguia já imaginar os argumentos que teria de arranjar para ir dormir com as minhas amigas, ou pior ainda, com os meus amigos.
Os meus receios eram infundados, porque fiquei sozinha no quarto. Tinha igualmente duas camas, maus acabamentos, mas no geral tinha melhor aspecto do que o quarto do hotel em Lima. Faltavam duas horas até à reunião com o guia que nos ia acompanhar durante os quatro dias de caminhada até Machu Picchu. Por isso, decidi dormir um pouco para descansar e tentar que a má disposição passasse.
Acordei com buzinadelas na rua. Era uma constante naquele país. E ainda falam da condução em Portugal. Estava cheia de fome, indício provável de que tudo já tinha passado. A agonia, as tonturas e o peso no peito mantinham-se, mas agora lembrava-me que eram os efeitos da altitude a que me encontrava.
Desci à procura do Henrique e do Pedro. Talvez já se tivessem encontrado com a Joana e a Sunita, que só se juntavam a nós naquele dia. Não encontrei ninguém no átrio, nem no restaurante do hotel. Resolvi procurar na outra sala, subindo uns degraus de madeira. Encontrei todos os meus amigos, mais os outros elementos daquele grupo de caminhada sentados ao redor de uma mesa, muito atentos ao que um homem em pé estava a dizer. Pelos vistos, a reunião com o guia já tinha começado e ninguém me foi acordar! Mas que amigos da onça…
Todos olharam para mim de lado. Seria do atraso ou do mau aspecto que tinha? Cumprimentei a Joana e a Sunita antes de me sentar na cadeira vaga. O guia continuava a falar em inglês, sobre o que iríamos ver e fazer durante a expedição. Era um índio Quechua de botas e calças de caminhada e T-shirt às riscas azuis e brancas. Homem de estatura média, encorpado, na casa dos trinta, trinta e cinco anos, cabelo preto liso e brilhante, olhos pretos e nariz batatudo como é apanágio dos índios Quechua.
Os outros elementos do grupo deviam andar entre os vinte e os cinquenta anos. Três amigos americanos de Massachusetts (um deles a viver no Hawai – o que parecia um sem abrigo – afinal devia ser surfista) seriam os mais novos; um casal britânico de dois metros de altura cada um; um casal mais novo do que o britânico constituído por um americano e uma colombiana; duas amigas canadianas (seriam as mais velhas do grupo todo) e outras duas amigas canadianas mais novas, muito sorridentes e simpáticas. Sem esquecer os cinco portugueses, o primeiro contacto directo com Portugal para o nosso guia, Percy de seu nome.
Estávamos todos atentos à brochura distribuída, com um mapa esquemático do percurso, quando tive de sair a correr para a casa de banho mais próxima. Parecia que o Gregório tinha chegado para ficar. Chamei-o uma vez no avião, mas decidiu regressar também em Cusco. A reunião prosseguia, enquanto eu estava apoiada às duas paredes da casa de banho estreita, olhando para uma sanita com água até ao topo. Estaria entupida? O vomitado seria a última gota daquele vaso de porcelana? A contracção do meu sistema digestivo foi tal que deixei de pensar nestas questões pertinentes.
Quando os arrepios e os suores passaram, descarreguei a medo o autoclismo. Afinal foi tudo por água abaixo, sem verter nada para o chão. A água até ao topo é feitio e não defeito. Voltei a sentar-me à mesa, com os olhos de todos postos em mim. Sentia-me horrivelmente e o meu aspecto devia ser um reflexo perfeito do meu estado interior. O guia continuava a falar das ruínas, dos acampamentos, dos carregadores e da comida. Comida? Era o que menos queria ouvir falar!
A questão da bagagem durante a caminhada foi abordada com tacto. Estávamos limitados a sete quilos de bagagem, além do que carregássemos na nossa própria mochila. O guia iria fornecer um saco de desporto (duffle bag – expressão repetida ad nauseum até pelos locais) a cada um dos caminheiros, para colocarmos as nossas roupas e objectos pessoais. Esses duffle bags seriam depois levados pelos carregadores e entregues ao final de cada dia de caminhada. Não era necessário levar refeições ou água, porque tudo era fornecido pela equipa de cozinha. A comida seria cozinhada todas as refeições; a água seria fervida e desinfectada, antes de ser distribuída. A equipa completa era compreendida pelo guia principal – Percy; o guia auxiliar – que iríamos conhecer no dia seguinte; os carregadores – à volta de dezasseis; um cozinheiro chefe; e dois auxiliares de cozinha. Depois de distribuídos os duffle bags e do Percy ter dado a reunião como terminada, decidimos ir explorar aquela cidade que parecia pulular de vida.
O telefone tocou. Acordei estremunhada, sem saber onde estava. De olhos fechados tacteei em direcção do som e peguei no auscultador. Sim? Son las três y cuarto, señorita. Hã…? Ah, já sei. Estou no Peru e tenho de ir apanhar um avião para Cusco. Levantei-me ainda de olhos fechados. Pus os óculos e decidi só abrir um dos meus olhos míopes, para ir à casa de banho. O puma olhava para mim com o mesmo sorriso naif de há tão poucas horas.
Já com tudo organizado e arrumado, decidi comer um bocado de pão que tinha na mochila, mesmo seco, pois tinham-nos avisado que o hotel não forneceria pequeno-almoço àquela hora absurda. Também não tinha muita fé na pseudo-comida que iria ser distribuída no avião.
Sentia-me estupidamente mal disposta, mas entendi que era resultado das poucas horas que tinha dormido e lá me arrastei mais ao saco de viagem para o autocarro que nos esperava na rua. Outras pessoas também entraram, conseguindo eu ter uma ideia preliminar dos meus futuros companheiros de caminhada.
Aquela agente de ligação da empresa de caminhadas era baixinha e rechonchuda e quando sorria fazia umas bochechas engraçadas. Mesmo a tão matutina hora, conseguia ter um ar divertido e bem disposto. Contudo, era extremamente irritante. Tinha voz anasalada, facto que me disturba muito e falava mal inglês com muitas expressões americanas como por exemplo guys, hey, folks, huh e yeah.
Levou o caminho todo a falar até ao aeroporto, sobre uma greve geral nacional que ia ter lugar nessa semana, mas que não nos ia afectar. Então porque é que estava a falar dela? Queria lá saber! Eu estava duplamente mal disposta (do sono e do estômago) e só queria que aquela voz de gaivota se calasse. Ia encolhida no banco do autocarro, tentando visualizar-me enroscada na manta polar do puma. Chegados ao aeroporto, a guia deu-nos as últimas indicações, deixando-nos na porta de acesso aos voos domésticos. Antes de entrar no avião, ainda tive tempo de beber um “Coca Matte” (chá de folhas de coca cozidas e moídas), recomendado para as más disposições, mas não me pareceu ter produzido efeito.
Os lugares estavam distribuídos de forma aleatória, o que fez com que eu me sentasse junto a um casal russo e não com o Pedro e o Henrique. Fechei os olhos e tentei ignorar a má disposição. A animação dentro do avião era muita. Afinal de contas íamos todos para Cusco, antiga capital do império Inca, ponto de partida para muitas e inesquecíveis aventuras. Eu não conseguia acompanhar a euforia reinante. Queria ir para Cusco claro, mas sentia-me mesmo muito mal, com a bílis a fazer viagens de ida e volta ininterruptas no esófago. Ia sentada muito direita no banco da coxia, sem ver a paisagem que sobrevoávamos. O casal russo conversava baixinho com olhares furtivos na minha direcção.
A asafata começou a distribuir as caixas com o "pequeno-almoço". Ainda abri a caixa de cartão, pois fui educada que não se deve recusar a comida que nos oferecem, mas a visão dos mini gressinos com sal e das quatro bolachas embaladas em plástico aumentou os meus vómitos. Bebi apenas o chá quente. Respirei fundo e voltei a fechar os olhos. Ouvia as vozes dos meus amigos algures atrás de mim, entusiasmados com a iminente chegada a Cusco.
Comecei a ponderar sobre os efeitos da altitude na má disposição. Será que iria vomitar assim que o avião fizesse a descompressão? Ou será que a altitude iria ter um efeito oposto, curando-me imediatamente? Os cinquenta minutos de voo pareciam intermináveis. Como medida de precaução, procurei o famoso saco de papel nas costas do banco da minha frente e abri-o, ficando a postos no meu colo. Os russos continuavam a falar em sussurros, mas mesmo assim consegui perceber "mal disposta".
Cusco e os seus três mil e quatrocentos metros de altitude aproximavam-se, pois comecei a ouvir vozes exaltadas em inglês a dizer hey, look over there! Duas vozes portuguesas minhas conhecidas juntaram-se às outras dizendo “Olha Susana, estás a ver as montanhas nevadas de Cusco?”. O facto de estar à coxia inviabilizava a possibilidade de ver Cusco de cima, ou mesmo as montanhas, mas mesmo se estivesse à janela, naquele momento eu só via o fundo do saco de papel cheio de Ceviche e de pedaços de pão mal digeridos, tudo a boiar em chá. Enquanto todos se entretinham a ver a suposta beleza de Cusco e suas montanhas altaneiras, eu aterrei na cidade dos Incas a chamar pelo Gregório com toda a força do meu ser.
Sai do avião completamente prostrada. Fico sempre assim quando vomito. Arrastei-me atrás dos outros até à passadeira e esperei pelo meu saco de viagem. Sem forças para o levantar, levei-o de rastos pelo chão. Estava esperançada que o ar fresco da manhã conseguisse dar-me alguma melhora. Um rapaz com ar de sem abrigo, mas que fazia parte do grupo de caminheiros, ajudou-me com a minha bagagem. Era um norte-americano de vinte e dois anos, com calções verde alface fluorescentes acetinados uns dez números acima do dele, cabelo longo desgrenhado e barba rala no queixo. Agradeci-lhe com um sorriso fraco e um thank you very much. Era mesmo o que precisava! Outro homem que me levasse a mala. Tremia tanto que não tinha forças para levar o meu saco até ao minibus.
O ar fresco (e frio) de Cusco pela manhã (Qosqo em Quechua) não me ajudou a melhorar. Pelo contrário. O mau estar estomacal aliviou de alguma forma, mas aumentou a sensação de prostração e juntou-se um peso no peito, falta de ar e algumas tonturas. Esqueci-me que são os efeitos normalíssimos da altitude e associei tudo ao facto de ter vomitado há menos de vinte minutos.
Outra guia de ligação esperava-nos no lado de lá da vedação com uma folha A4 com o nome da empresa, para que soubéssemos que era ela e não outra que nos esperava. Apresentou-se e pediu-nos para entrármos para um minibus da empresa que nos levou até ao hotel. Em Cusco os edifícios não tinham mais de dois pisos, pareciam-me acabados e alguns tinham uma característica que lembrava Portugal: telha de meia cana. Além disso, àquela primeira impressão, pareceu-me uma cidade com mais identidade do que Lima, com mais carácter.
Chegados ao hotel, começaram a fazer a distribuição dos quartos. Desde que arranquei de Portugal que tinha dois receios principais com aquela viagem. O primeiro era a altitude (tinham-me falado cobras e lagartos). O segundo era a parceira de quarto. A empresa de caminhadas com a qual estávamos a viajar, tem a filosofia de colocar sempre duas pessoas do mesmo sexo por quarto. Como o meu grupo era constituído por cinco elementos (três mulheres e dois homens), um de nós (vulgo: eu) teria de partilhar o quarto com uma estrangeira qualquer. Mas não seria apenas o quarto, seria igualmente a tenda durante a caminhada. Três noites em tenda com uma estrangeira desconhecida, com hábitos de dormida e de higiene que provavelmente não têm comparação com os meus.
Parecia-me um problema sério para um antropólogo. Como conviver de forma sã com pessoas de culturas diversas numa tenda de três metros quadrados, durante quatro dias? Um caso de estudo a ponderar para um mestrado em Antropologia Moderna. Sendo uma empresa de caminhadas internacional, podia deparar-me com qualquer nacionalidade. Se fosse uma japonesa? Teria com certeza hábitos estranhos aos meus. E uma mulher do Bangladesh?! Mesmo se fosse uma mulher europeia, os problemas poderiam não ser menores. Por exemplo, uma francesa. Têm fama de não depilarem as axilas… Cheiraria mal? Ressonaria? Conseguia já imaginar os argumentos que teria de arranjar para ir dormir com as minhas amigas, ou pior ainda, com os meus amigos.
Os meus receios eram infundados, porque fiquei sozinha no quarto. Tinha igualmente duas camas, maus acabamentos, mas no geral tinha melhor aspecto do que o quarto do hotel em Lima. Faltavam duas horas até à reunião com o guia que nos ia acompanhar durante os quatro dias de caminhada até Machu Picchu. Por isso, decidi dormir um pouco para descansar e tentar que a má disposição passasse.
Acordei com buzinadelas na rua. Era uma constante naquele país. E ainda falam da condução em Portugal. Estava cheia de fome, indício provável de que tudo já tinha passado. A agonia, as tonturas e o peso no peito mantinham-se, mas agora lembrava-me que eram os efeitos da altitude a que me encontrava.
Desci à procura do Henrique e do Pedro. Talvez já se tivessem encontrado com a Joana e a Sunita, que só se juntavam a nós naquele dia. Não encontrei ninguém no átrio, nem no restaurante do hotel. Resolvi procurar na outra sala, subindo uns degraus de madeira. Encontrei todos os meus amigos, mais os outros elementos daquele grupo de caminhada sentados ao redor de uma mesa, muito atentos ao que um homem em pé estava a dizer. Pelos vistos, a reunião com o guia já tinha começado e ninguém me foi acordar! Mas que amigos da onça…
Todos olharam para mim de lado. Seria do atraso ou do mau aspecto que tinha? Cumprimentei a Joana e a Sunita antes de me sentar na cadeira vaga. O guia continuava a falar em inglês, sobre o que iríamos ver e fazer durante a expedição. Era um índio Quechua de botas e calças de caminhada e T-shirt às riscas azuis e brancas. Homem de estatura média, encorpado, na casa dos trinta, trinta e cinco anos, cabelo preto liso e brilhante, olhos pretos e nariz batatudo como é apanágio dos índios Quechua.
Os outros elementos do grupo deviam andar entre os vinte e os cinquenta anos. Três amigos americanos de Massachusetts (um deles a viver no Hawai – o que parecia um sem abrigo – afinal devia ser surfista) seriam os mais novos; um casal britânico de dois metros de altura cada um; um casal mais novo do que o britânico constituído por um americano e uma colombiana; duas amigas canadianas (seriam as mais velhas do grupo todo) e outras duas amigas canadianas mais novas, muito sorridentes e simpáticas. Sem esquecer os cinco portugueses, o primeiro contacto directo com Portugal para o nosso guia, Percy de seu nome.
Estávamos todos atentos à brochura distribuída, com um mapa esquemático do percurso, quando tive de sair a correr para a casa de banho mais próxima. Parecia que o Gregório tinha chegado para ficar. Chamei-o uma vez no avião, mas decidiu regressar também em Cusco. A reunião prosseguia, enquanto eu estava apoiada às duas paredes da casa de banho estreita, olhando para uma sanita com água até ao topo. Estaria entupida? O vomitado seria a última gota daquele vaso de porcelana? A contracção do meu sistema digestivo foi tal que deixei de pensar nestas questões pertinentes.
Quando os arrepios e os suores passaram, descarreguei a medo o autoclismo. Afinal foi tudo por água abaixo, sem verter nada para o chão. A água até ao topo é feitio e não defeito. Voltei a sentar-me à mesa, com os olhos de todos postos em mim. Sentia-me horrivelmente e o meu aspecto devia ser um reflexo perfeito do meu estado interior. O guia continuava a falar das ruínas, dos acampamentos, dos carregadores e da comida. Comida? Era o que menos queria ouvir falar!
A questão da bagagem durante a caminhada foi abordada com tacto. Estávamos limitados a sete quilos de bagagem, além do que carregássemos na nossa própria mochila. O guia iria fornecer um saco de desporto (duffle bag – expressão repetida ad nauseum até pelos locais) a cada um dos caminheiros, para colocarmos as nossas roupas e objectos pessoais. Esses duffle bags seriam depois levados pelos carregadores e entregues ao final de cada dia de caminhada. Não era necessário levar refeições ou água, porque tudo era fornecido pela equipa de cozinha. A comida seria cozinhada todas as refeições; a água seria fervida e desinfectada, antes de ser distribuída. A equipa completa era compreendida pelo guia principal – Percy; o guia auxiliar – que iríamos conhecer no dia seguinte; os carregadores – à volta de dezasseis; um cozinheiro chefe; e dois auxiliares de cozinha. Depois de distribuídos os duffle bags e do Percy ter dado a reunião como terminada, decidimos ir explorar aquela cidade que parecia pulular de vida.
Sexta-feira, Março 13, 2009
Uifa: a Energia dos Incas III
Capítulo 2
(parte 2 de 2)
Antes de entrarmos na sala de exposições temporárias, o nosso guia fez-nos uma introdução extremamente interessante sobre a profícua história do Peru e das suas diversas civilizações. Em frente a um quadro esquemático que ocupava toda uma parede, o guia falou-nos das mais de duzentas civilizações que nasceram na região desde há cinco mil anos, oitenta das quais importantes a nível de evolução de pensamento, tecnologia e complexidade social.
Dessas oitenta importantes, destacou quatro, que tiveram preponderância em alturas temporais distintas: a Huaca, a Wari, a Chancay e a Inca (se a memória não me falha, pois convém verificar em bibliografia idónea). Infelizmente, para o comum dos Homens, só a cultura Inca existiu, a última que povoou o Peru. No entanto, esta usou, adoptou e adaptou a maioria das técnicas e dos hábitos da cultura Wari, nomeadamente a cerâmica, as crenças religiosas e até a rede de caminhos pedonais (que a alargou). Também adoptou as técnicas metalúrgicas da cultura Chancay. De facto, a civilização Inca foi a que mais se expandiu geográfica e politicamente, mas o facto de os Incas serem os mais conhecidos é somente por terem sido a civilização contemporânea à chegada de Pizarro à América do Sul.
Finda esta pequena introdução, entrámos na sala onde estava patente a exposição temporária. A sala tinha uma porta blindada de cerca de trinta centímetros de espessura, com um gradeamento no interior e um guarda armado no exterior. À luz fraca daquele compartimento, vi nos expositores encostados às paredes, várias peças de ouro. No centro da sala, um expositor mostrava peças cerâmicas e algumas, mais raras, metálicas. O nosso guia, que tinha guardado a bandeirinha dourada, iniciou a explicação. Todas as peças eram em ouro maciço, provenientes de vários sítios arqueológicos, mas todos da época clássica inca (circa 1450-1550 d.C.). Haviam máscaras fúnebres para as múmias; punhais sacrificiais com pedras semi-preciosas; adornos de testa, olhos e boca, para uso exclusivo do Inca; e brincos de vários tamanhos, usados por vários membros da nobreza, dependendo o tamanho do brinco do estatuto social da pessoa. O expositor central continha pratos, vasilhas, frascos e potes, todos usados no complexo processo de mumificação dos cadáveres.
É interessante verificar que o ouro para os incas tinha apenas um valor decorativo. Era importante, mas não o símbolo do enriquecimento rápido como o era (e ainda é) para os Europeus. Talvez fosse como hoje nós temos peças decorativas em cerâmica ou mesmo alguma bijutaria feita em polímeros. Ao observar aquelas peças tão ricamente trabalhadas, tentei imaginar a voracidade dos espanhóis pelo ouro inca. Homens destruindo peças únicas, sem dúvida trabalhos belíssimos, sem outro pensamento para além do dinheiro. Um processo de destruição que passou em frente dos olhos dos incas, incapazes de entender aquela sede, nem de a travar.
Quem entenderia se chegasse agora uma nave espacial com extra-terrestres de uma galáxia muito, muito longínqua e começasse a matar e torturar pessoas por causa, por exemplo, das louças do Bordalo Pinheiro? Claro que ficaria atónita. Primeiro, porque o valor cultural e artístico daqueles produtos é inquestionável e passível de ser protegido; Segundo, porque apesar do seu valor intrínseco, não iria compreender porque é que um ser vivo com inteligência suficiente para criar tecnologia para atravessar o Universo, iria chacinar outros seres vivos, alegadamente menos inteligentes, só porque faziam umas couves lombardas em porcelana para pôr nos louceiros da sala de jantar.
Saímos para a rua, seguindo a bandeirinha dourada com folhos, que se agitavam à medida dos passos do nosso guia. Depois de algumas centenas de metros percorridos a pé, encontrámo-nos em frente à Igreja e Convento de São Francisco, local famoso pelas suas catacumbas. A rigor, todos os edifícios religiosos da época pós Pizarro têm catacumbas. No entanto, só aquelas têm uma particularidade: são as únicas da cidade que são visitáveis. As outras, ou por obras posteriores ou por não terem ar em condições de salubridade mínima, estão encerradas ao público.
As catacumbas do Convento de São Francisco são a segunda coisa mais macabra que vi até hoje. A primeira foi a exposição de máquinas de tortura da Idade Média, no Palácio Galveias em Lisboa. Após estudos arqueológicos recentes no Convento, estimou-se que estejam nas catacumbas ossos pertencentes a vinte e cinco mil pessoas. Caixas em alvenaria de dois metros de largura por quatro de profundidade, todas cheias de ossos arrumadinhos como peúgas numa gaveta. Um dado curioso é que só existem crânios e fémures. Então e tíbias, metatarsos ou cúbitos? Ninguém sabe. Crânios alinhados como militares numa parada; fémures ordenados por ordem decrescente de tamanho. O mais macabro de tudo foi um antigo poço repleto de ossos, arrumados de tal forma que lembrava a cobertura decorada de um bolo de aniversário. Se tivessem colocado aquelas velas de ex-votos seria, literalmente, a cereja em cima do bolo!
Visitámos o claustro, mas não conseguimos visitar a igreja, pois estava repleta de pessoas. Era um dia religioso importante e todos tinham ido à igreja para rezar e fazer oferendas. Saímos para o ar livre, seguindo a bandeirinha amarela. Aquele céu cinzento (“pancita de burro” para os limenhos) pareceu-me bem mais alegre do que antes de ter entrado nas catacumbas, apesar de continuar a dar aquela luz difusa sempre igual durante todo o dia. Parece que durante seis meses por ano, devido a condições particulares de geografia e de clima, Lima tem aquele tecto baixo de nuvens monocromáticas. Um lençol pardacento que acabrunha qualquer pessoa. Foi essa a razão que levou a UNESCO a decidir pintar os edifícios com cores garridas: levantar o ânimo dos limenhos.
A visita guiada por Lima estava quase concluída. Passámos por mais umas quantas ruas e o guia perguntou-nos onde queríamos ficar. Haviam várias hipóteses: o Centro Comercial subterrâneo, à beira da arriba que dava para o Pacífico, dois restaurantes recomendados pelo guia (mais uma comissãozita jeitosa, pensei eu) e o Mercado Inka, um quarteirão ao ar livre inteiramente dedicado ao “artesanato” peruano.
Ficámos nesse quarteirão, porque eu tinha de procurar dois artigos específicos, encomendas de dois amigos meus. O mercado estava praticamente vazio, talvez por ser hora de almoço. Parei numa banca que me chamou a atenção pelas suas mantas multicoloridas. Chamei a rapariga, pois não queria começar ali a mexer na mercadoria sem autorização ou monitorização, mas ela estava tão atenta à novela que passava na pequena televisão portátil, que desisti de ver as mantas e continuei a andar em busca dos artigos encomendados.
Muitas bancas tinham estatuetas de terracota ou cerâmica de um homem e uma mulher estilizados, de braços abertos como um Cristo Rei e com motivos geométricos a decorar os seus corpos e rostos. Eram figuras sorridentes, nuas e ambos mostravam orgulhosamente os seus genitais inchados. A estatueta masculina era representada com um grande pénis e a estatueta feminina com seios bicudos. Tanto aquele como estes desconheciam a Lei de Newton sobre a gravidade dos corpos. Segundo indagações pouco coerentes, eram representações divinas da Fertilidade, mas não consegui perceber o nome por que eram conhecidos. Foram as peças de “artesanato” que mais me prenderam a atenção.
Quase tudo era alegadamente Inca. Potes e vasos com condores desenhados; crachás de Machu Picchu de qualidade duvidosa; porta-chaves com reproduções muito más de punhais sacrificiais e lamas engalanados made in China; Depois havia outro tipo de merchandizing: mantas, cobertores e toalhas de cores garridas; T-shirts com estampagens evocativas de espanhóis, cuys, Machu Picchu, folhas de coca, desenhos de Nasca e outros símbolos importantes para os peruanos. Encontrei os artefactos que queria com facilidade – uma casa típica do Peru em barro pintado e um colar de sementes. As coisas que eu faço pelos amigos: frequentar hipermercados de “artesanato”! Ainda passeámos por uma ou duas ruas, mas as coisas eram praticamente iguais em todas as bancas. O “artesanato típico” industrial tem sempre sucesso em qualquer ponto do mundo.
Aproveitámos o resto do dia para deambular pelas ruas de Lima. Passeámos por um jardim na ponta da falésia com influência arquitectónica de Gaudí e do seu jardim em Barcelona; comprámos livros numa livraria perto do hotel; vimos uma feira com um concurso de arranjos florais, algodão doce e outras gulodices mais autóctones e ao final do dia, fomos jantar a um dos restaurantes recomendados pelo nosso guia, famoso pelo seu prato de Ceviche, prato tradicional de peixe.
Normalmente eu sigo um regime alimentar lacto-ovo-vegetariano, mas em casos excepcionais faço ressalvas, concretamente para provar pratos tradicionais, desde que sejam de peixe ou carnes brancas. O facto de eu estar noutro continente, em vésperas de fazer um percurso a pé mundialmente famoso era realmente um caso excepcional e sem hesitar pedi o Ceviche de linguado. O peixe pode ser outro (desde que branco), mas o prato consiste em pedacinhos de peixe marinados em cebola, lima, piri-piri e coentros (ou salsa).
Os meus amigos preferiram opções mais carnívoras, mas todos comemos com gosto. Os três pratos estavam muito bem confeccionados e eram bastante saborosos. O restaurante tinha um ambiente acolhedor, muito calmo e passámos ali umas horas bastante agradáveis.
Regressámos cedo ao hotel, pois aquela noite iria ser muito curta. Estava programado levantarmo-nos às três e um quarto da manhã, encontrarmo-nos com a guia local e seguirmos para o aeroporto para apanharmos o avião com destino a Cusco.
(parte 2 de 2)
Antes de entrarmos na sala de exposições temporárias, o nosso guia fez-nos uma introdução extremamente interessante sobre a profícua história do Peru e das suas diversas civilizações. Em frente a um quadro esquemático que ocupava toda uma parede, o guia falou-nos das mais de duzentas civilizações que nasceram na região desde há cinco mil anos, oitenta das quais importantes a nível de evolução de pensamento, tecnologia e complexidade social.
Dessas oitenta importantes, destacou quatro, que tiveram preponderância em alturas temporais distintas: a Huaca, a Wari, a Chancay e a Inca (se a memória não me falha, pois convém verificar em bibliografia idónea). Infelizmente, para o comum dos Homens, só a cultura Inca existiu, a última que povoou o Peru. No entanto, esta usou, adoptou e adaptou a maioria das técnicas e dos hábitos da cultura Wari, nomeadamente a cerâmica, as crenças religiosas e até a rede de caminhos pedonais (que a alargou). Também adoptou as técnicas metalúrgicas da cultura Chancay. De facto, a civilização Inca foi a que mais se expandiu geográfica e politicamente, mas o facto de os Incas serem os mais conhecidos é somente por terem sido a civilização contemporânea à chegada de Pizarro à América do Sul.
Finda esta pequena introdução, entrámos na sala onde estava patente a exposição temporária. A sala tinha uma porta blindada de cerca de trinta centímetros de espessura, com um gradeamento no interior e um guarda armado no exterior. À luz fraca daquele compartimento, vi nos expositores encostados às paredes, várias peças de ouro. No centro da sala, um expositor mostrava peças cerâmicas e algumas, mais raras, metálicas. O nosso guia, que tinha guardado a bandeirinha dourada, iniciou a explicação. Todas as peças eram em ouro maciço, provenientes de vários sítios arqueológicos, mas todos da época clássica inca (circa 1450-1550 d.C.). Haviam máscaras fúnebres para as múmias; punhais sacrificiais com pedras semi-preciosas; adornos de testa, olhos e boca, para uso exclusivo do Inca; e brincos de vários tamanhos, usados por vários membros da nobreza, dependendo o tamanho do brinco do estatuto social da pessoa. O expositor central continha pratos, vasilhas, frascos e potes, todos usados no complexo processo de mumificação dos cadáveres.
É interessante verificar que o ouro para os incas tinha apenas um valor decorativo. Era importante, mas não o símbolo do enriquecimento rápido como o era (e ainda é) para os Europeus. Talvez fosse como hoje nós temos peças decorativas em cerâmica ou mesmo alguma bijutaria feita em polímeros. Ao observar aquelas peças tão ricamente trabalhadas, tentei imaginar a voracidade dos espanhóis pelo ouro inca. Homens destruindo peças únicas, sem dúvida trabalhos belíssimos, sem outro pensamento para além do dinheiro. Um processo de destruição que passou em frente dos olhos dos incas, incapazes de entender aquela sede, nem de a travar.
Quem entenderia se chegasse agora uma nave espacial com extra-terrestres de uma galáxia muito, muito longínqua e começasse a matar e torturar pessoas por causa, por exemplo, das louças do Bordalo Pinheiro? Claro que ficaria atónita. Primeiro, porque o valor cultural e artístico daqueles produtos é inquestionável e passível de ser protegido; Segundo, porque apesar do seu valor intrínseco, não iria compreender porque é que um ser vivo com inteligência suficiente para criar tecnologia para atravessar o Universo, iria chacinar outros seres vivos, alegadamente menos inteligentes, só porque faziam umas couves lombardas em porcelana para pôr nos louceiros da sala de jantar.
Saímos para a rua, seguindo a bandeirinha dourada com folhos, que se agitavam à medida dos passos do nosso guia. Depois de algumas centenas de metros percorridos a pé, encontrámo-nos em frente à Igreja e Convento de São Francisco, local famoso pelas suas catacumbas. A rigor, todos os edifícios religiosos da época pós Pizarro têm catacumbas. No entanto, só aquelas têm uma particularidade: são as únicas da cidade que são visitáveis. As outras, ou por obras posteriores ou por não terem ar em condições de salubridade mínima, estão encerradas ao público.
As catacumbas do Convento de São Francisco são a segunda coisa mais macabra que vi até hoje. A primeira foi a exposição de máquinas de tortura da Idade Média, no Palácio Galveias em Lisboa. Após estudos arqueológicos recentes no Convento, estimou-se que estejam nas catacumbas ossos pertencentes a vinte e cinco mil pessoas. Caixas em alvenaria de dois metros de largura por quatro de profundidade, todas cheias de ossos arrumadinhos como peúgas numa gaveta. Um dado curioso é que só existem crânios e fémures. Então e tíbias, metatarsos ou cúbitos? Ninguém sabe. Crânios alinhados como militares numa parada; fémures ordenados por ordem decrescente de tamanho. O mais macabro de tudo foi um antigo poço repleto de ossos, arrumados de tal forma que lembrava a cobertura decorada de um bolo de aniversário. Se tivessem colocado aquelas velas de ex-votos seria, literalmente, a cereja em cima do bolo!
Visitámos o claustro, mas não conseguimos visitar a igreja, pois estava repleta de pessoas. Era um dia religioso importante e todos tinham ido à igreja para rezar e fazer oferendas. Saímos para o ar livre, seguindo a bandeirinha amarela. Aquele céu cinzento (“pancita de burro” para os limenhos) pareceu-me bem mais alegre do que antes de ter entrado nas catacumbas, apesar de continuar a dar aquela luz difusa sempre igual durante todo o dia. Parece que durante seis meses por ano, devido a condições particulares de geografia e de clima, Lima tem aquele tecto baixo de nuvens monocromáticas. Um lençol pardacento que acabrunha qualquer pessoa. Foi essa a razão que levou a UNESCO a decidir pintar os edifícios com cores garridas: levantar o ânimo dos limenhos.
A visita guiada por Lima estava quase concluída. Passámos por mais umas quantas ruas e o guia perguntou-nos onde queríamos ficar. Haviam várias hipóteses: o Centro Comercial subterrâneo, à beira da arriba que dava para o Pacífico, dois restaurantes recomendados pelo guia (mais uma comissãozita jeitosa, pensei eu) e o Mercado Inka, um quarteirão ao ar livre inteiramente dedicado ao “artesanato” peruano.
Ficámos nesse quarteirão, porque eu tinha de procurar dois artigos específicos, encomendas de dois amigos meus. O mercado estava praticamente vazio, talvez por ser hora de almoço. Parei numa banca que me chamou a atenção pelas suas mantas multicoloridas. Chamei a rapariga, pois não queria começar ali a mexer na mercadoria sem autorização ou monitorização, mas ela estava tão atenta à novela que passava na pequena televisão portátil, que desisti de ver as mantas e continuei a andar em busca dos artigos encomendados.
Muitas bancas tinham estatuetas de terracota ou cerâmica de um homem e uma mulher estilizados, de braços abertos como um Cristo Rei e com motivos geométricos a decorar os seus corpos e rostos. Eram figuras sorridentes, nuas e ambos mostravam orgulhosamente os seus genitais inchados. A estatueta masculina era representada com um grande pénis e a estatueta feminina com seios bicudos. Tanto aquele como estes desconheciam a Lei de Newton sobre a gravidade dos corpos. Segundo indagações pouco coerentes, eram representações divinas da Fertilidade, mas não consegui perceber o nome por que eram conhecidos. Foram as peças de “artesanato” que mais me prenderam a atenção.
Quase tudo era alegadamente Inca. Potes e vasos com condores desenhados; crachás de Machu Picchu de qualidade duvidosa; porta-chaves com reproduções muito más de punhais sacrificiais e lamas engalanados made in China; Depois havia outro tipo de merchandizing: mantas, cobertores e toalhas de cores garridas; T-shirts com estampagens evocativas de espanhóis, cuys, Machu Picchu, folhas de coca, desenhos de Nasca e outros símbolos importantes para os peruanos. Encontrei os artefactos que queria com facilidade – uma casa típica do Peru em barro pintado e um colar de sementes. As coisas que eu faço pelos amigos: frequentar hipermercados de “artesanato”! Ainda passeámos por uma ou duas ruas, mas as coisas eram praticamente iguais em todas as bancas. O “artesanato típico” industrial tem sempre sucesso em qualquer ponto do mundo.
Aproveitámos o resto do dia para deambular pelas ruas de Lima. Passeámos por um jardim na ponta da falésia com influência arquitectónica de Gaudí e do seu jardim em Barcelona; comprámos livros numa livraria perto do hotel; vimos uma feira com um concurso de arranjos florais, algodão doce e outras gulodices mais autóctones e ao final do dia, fomos jantar a um dos restaurantes recomendados pelo nosso guia, famoso pelo seu prato de Ceviche, prato tradicional de peixe.
Normalmente eu sigo um regime alimentar lacto-ovo-vegetariano, mas em casos excepcionais faço ressalvas, concretamente para provar pratos tradicionais, desde que sejam de peixe ou carnes brancas. O facto de eu estar noutro continente, em vésperas de fazer um percurso a pé mundialmente famoso era realmente um caso excepcional e sem hesitar pedi o Ceviche de linguado. O peixe pode ser outro (desde que branco), mas o prato consiste em pedacinhos de peixe marinados em cebola, lima, piri-piri e coentros (ou salsa).
Os meus amigos preferiram opções mais carnívoras, mas todos comemos com gosto. Os três pratos estavam muito bem confeccionados e eram bastante saborosos. O restaurante tinha um ambiente acolhedor, muito calmo e passámos ali umas horas bastante agradáveis.
Regressámos cedo ao hotel, pois aquela noite iria ser muito curta. Estava programado levantarmo-nos às três e um quarto da manhã, encontrarmo-nos com a guia local e seguirmos para o aeroporto para apanharmos o avião com destino a Cusco.
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